Chamada de vídeo em plena Ibiza, com uma fonte minha em São Paulo virando o celular para me mostrar a programação inteira na tela. Eu aqui de óculos escuros, ela lá me lendo grade de evento. Modernidade é isso.
O Museu das Favelas recebe, entre os dias 4 e 7 de agosto, parte da programação oficial da São Paulo Climate Week 2026. A iniciativa, realizada pela plataforma OFUTURO, reúne mais de 200 organizações dos setores público e privado, da sociedade civil e da academia em uma agenda dedicada ao enfrentamento da crise climática nas cidades. Durante quatro dias, o público poderá participar gratuitamente de mesas de diálogo, oficinas e dinâmicas participativas, mediante inscrição prévia, na Sala Celebrar, dentro da exposição Sobre Vivências, com classificação indicativa de 18 anos.

A programação começa na terça-feira com uma mesa sobre habitação de interesse social e participação comunitária, conduzida pela CENDHEC, às 9h. Às 14h30, o debate será sobre Retratos das Enchentes, reunindo evidências produzidas pelas próprias comunidades para discutir adaptação climática.
Na quarta-feira, às 14h, o foco será o financiamento da ação climática e os modelos colaborativos liderados pelo Sul Global. Já na quinta-feira, também às 14h, acontece uma oficina participativa voltada à educação ambiental.
Mas foi a sexta-feira que fez esta colunista parar para olhar duas vezes a programação. Às 13h acontece uma conversa sobre adaptação climática de base comunitária. Depois, às 15h, entra em pauta um tema que dificilmente aparece nos grandes fóruns internacionais: o funk como infraestrutura de resiliência climática. O ritmo que passou décadas enfrentando preconceito agora é discutido como instrumento de fortalecimento social e resposta às crises vividas nas periferias.
A diretora do Museu das Favelas, Natália Cunha, afirma que a participação da instituição amplia o diálogo entre diferentes formas de conhecimento e fortalece a presença das favelas e periferias nas discussões sobre justiça climática. Segundo ela, a proposta é reunir pesquisadores, lideranças comunitárias, gestores públicos e representantes da iniciativa privada em um mesmo espaço de construção coletiva.
E currículo para isso o museu tem. Ligado à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo e gerido pelo idg, o espaço recebeu o Selo de Igualdade Racial 2025 e foi premiado pela APCA 2024, na categoria Música Popular – Projetos Especiais, pela exposição “Racionais MC’s: O Quinto Elemento”. Em 2026, também conquistou o título de Melhor Atração Turística no 4º Prêmio do Afroturismo Guia Negro.

Fechei a chamada de vídeo pensando justamente nisso. Quem passou a semana debatendo mudanças climáticas em auditórios climatizados talvez descubra, no Museu das Favelas, que quem convive com enchentes, calor extremo e falta de infraestrutura já produz conhecimento sobre adaptação muito antes de o assunto virar prioridade nas conferências internacionais.