Estava eu em Cosme Velho nesta manhã de sábado, café passando, quando um contato do renomado site “Tempo Real” soltou os dados do Portal de Transparência de Maricá abertos numa tela só. O assunto: Carol Proner, advogada de fino trato e esposa do eterno Chico Buarque, está com o escritório muito bem alojado nos cofres da prefeitura governada por Washington Quaquá.
São dois contratos ativos, os dois no nome do Proner & Strozake Sociedade de Advogados. O primeiro foi assinado em maio de 2023 para prestar serviços jurídicos à Companhia Maricá Biotec, entrou em vigor com R$ 636 mil e foi reajustado para R$ 777,6 mil em 2024. O segundo começou em julho de 2025, tem vigência até julho de 2026 e vale R$ 702 mil, desta vez atendendo a Companhia Maricá Alimentos. Tudo devidamente registrado, tudo ativo, tudo somando R$ 1,47 milhão.


O problema é que a conta não fecha por aí. Carol também é diretora do Instituto Joaquín Herrera Flores América Latina, que assinou com a mesma prefeitura, em junho de 2023, um termo de colaboração de R$ 13,1 milhões para ações de formação e capacitação em direitos humanos. O pagamento corre em parcelas trimestrais ao longo de 48 meses, e o termo tem a assinatura dela no próprio documento, ao lado do secretário municipal João Carlos de Lima.
O desenho, visto de fora, é generoso demais para passar sem comentário. Carol preside o Conselho de Administração da Empresa de Cultura e Turismo da prefeitura de Maricá, seu escritório fatura lá, e o instituto onde ela figura como diretora tem o maior contrato do lote. A narrativa progressista sobre nepotismo e conflito de interesse costuma ser brandida com muito vigor quando o alvo é do campo adversário. Aqui, a musa da esquerda intelectual está no centro de uma teia de contratos com um município que o PT controla há anos.
Os contratos foram firmados dentro das formalidades, com chamamento público no caso do instituto e inexigibilidade de licitação nos casos do escritório. Maricá tem esse direito. Mas quando o sobrenome do contratado tem tanto peso simbólico para o campo que governa a cidade, a transparência não é só obrigação legal. Vira vitrine. E vitrine arrumada assim pede, no mínimo, uma explicação à altura.