Vamos ao que interessa. A Polícia Civil de Santa Catarina indiciou Jéssica Souza Santos, a mulher apontada como autora da cadeirada contra a humorista Fernanda Arantes durante um show em Florianópolis, no dia 10 de julho. Ela responderá por injúria e vias de fato, e o caso segue agora para o Poder Judiciário. Treze dias entre a agressão e o indiciamento, o que em investigação brasileira é praticamente velocidade de fórmula 1. Ajuda muito, claro, quando o crime acontece diante de uma plateia inteira, com celular na mão e palco iluminado. Não existe testemunha melhor do que sessenta pessoas com câmera.
O detalhe que muda o peso jurídico da coisa é a sequência. Segundo o relato da própria humorista, a confusão começou antes da mulher subir ao palco. Pratos, copos, coisas quebrando. Quando quiseram tirar a espectadora do local, ela passou a arremessar objetos. Ou seja, não foi um gesto isolado de alguém que perdeu a linha por dois segundos. Foi uma escalada. E Fernanda disse que o momento mais assustador não foi nem o risco para ela, foi perceber que outras pessoas podiam se machucar.
Agora, o bastidor digital, que é onde tudo sempre desanda. Depois do episódio, a suspeita não escolheu o silêncio, que seria o conselho de qualquer advogado com dois neurônios funcionando. Ela escolheu gravar um vídeo nas redes sociais alegando que a humorista teria feito piadas absurdas. Só que não detalhou quais. Nenhuma. Nem uma linha, nem um exemplo, nem um contexto. E aqui está o problema: Fernanda afirmou que seu set não tinha interação com o público nem piada direcionada à plateia, eram histórias da própria vida sobre assuntos leves. Uma versão traz especificidade. A outra traz adjetivo. Em apuração e em processo, adjetivo pesa pouco.
E tem a leitura de comportamento, que é minha especialidade preferida. A humorista terminou o show. Repito: terminou. “Continuei o show, fiz piada com a situação”, contou ela depois, em entrevista ao Encontro, da Globo, quando falou publicamente pela primeira vez. Só dias depois, com o susto assentado, admitiu que a ficha não tinha caído por completo e que continuava chateada. Esse é o retrato exato do profissional que aprendeu a engolir constrangimento em tempo real porque o microfone não espera ninguém processar trauma. Ela fez questão de lembrar que estava trabalhando, exercendo a profissão, e que ser agredida por outra mulher pesa ainda mais num ambiente que já é difícil para elas.
Enquanto uma escolheu o palco e depois a entrevista, com nome, cara e versão detalhada, a outra escolheu o story com acusação genérica. Uma estratégia de imagem envelhece em uma semana. A outra vai para os autos.
Moral da história, meus amores: comédia é a única profissão em que o público acha que comprou o direito de responder. Comprou ingresso. E agora, aparentemente, também comprou processo.