Estou na Itália, arrasada, com vontade real de pegar o primeiro voo e ir direto me despedir de Juca de Oliveira. A morte dele, confirmada neste sábado, 21 de março, em São Paulo, aos 91 anos, me pegou num lugar muito íntimo, porque Juca nunca foi um ator qualquer para quem ama dramaturgia de verdade. Ele tinha esse tamanho raro de presença que atropela modismo, dribla vaidade alheia e se instala na memória do público com uma autoridade quase insolente. Certos artistas entram na nossa vida pela televisão. Juca entrou pela artéria.
Eu sempre tive fascínio por ator visceral. Ator que parece ter nervo exposto em cena, que não entrega só técnica, entrega temperatura, inteligência, risco. Juca era desses. Você olhava e via um homem ocupado em interpretar de corpo inteiro, sem preguiça, sem truque de mão, sem essa ansiedade contemporânea de parecer brilhante o tempo todo. Ele brilhava porque sabia o que estava fazendo. E isso, meu amor, é uma espécie em extinção. Em mais de 40 anos de trabalhos na Globo, atravessou novelas, minisséries e seriados com a firmeza de quem não precisava disputar espaço. O espaço já era dele.
Pensar em Saramandaia e em O Clone é lembrar duas fases muito diferentes da televisão brasileira, e Juca soube ser essencial nas duas. Em Saramandaia, havia aquela ousadia febril de uma TV que gostava de flertar com o delírio e com a inteligência do público. Em O Clone, vinha o peso elegante do doutor Albieri, personagem que ele fez crescer com gravidade, mistério e uma sofisticação cênica que não se aprende em workshop de fim de semana. Juca tinha uma coisa que poucos tinham, a capacidade de parecer maior que a cena sem desmontar a cena. Ele elevava o material. Dava lastro. Dava importância. Dava vontade de assistir direito.
E aí entra uma parte da história que eu respeito ainda mais. Juca não se limitou a colecionar personagem famoso e aplauso fácil. Fez cerca de 60 peças como ator, escreveu, pensou teatro, defendeu a classe e presidiu o Sindicato dos Atores de São Paulo. Isso diz muito. Diz que havia ali um artista interessado no ofício e também na engrenagem do ofício. Gente assim segura porta para os outros passarem depois. Gente assim deixa marca na arte e na estrutura da arte. Num meio cheio de estrela que adora o próprio reflexo, Juca tinha substância.
Juca de Oliveira foi um gigante da dramaturgia brasileira porque construiu uma carreira com densidade, prestígio e permanência. Foi homem de palco, homem de televisão, homem de classe artística, homem de repertório. Eu estou longe, na Itália, e confesso que isso me angustia de um jeito quase infantil, porque eu queria estar perto do Brasil num dia como hoje. Queria estar perto de um país que perde um monstro sagrado e precisa, por obrigação moral, parar um minuto para lembrar quem realmente ajudou a erguer sua dramaturgia.