Meu bem, eu estava no sofá assistindo série quando minha fonte me ligou em modo pânico às onze e meia da noite e eu quase derrubei o copo de vinho na almofada nova porque o que ela me contou era roteiro de catástrofe da Netflix, daqueles que você começa achando que é ficção científica e no terceiro episódio percebe que é documentário. Um motor de avião explodindo no ar. Com gente dentro. Em Guarulhos. Domingo à noite. Eu tive que sentar para processar, meu povo, porque isso aqui estava além do meu limite de drama semanal e a semana nem tinha terminado.
O voo 104 da Delta decolou do Aeroporto de Guarulhos às 23h49 de domingo rumo a Atlanta com 272 passageiros e 14 tripulantes a bordo do Airbus A330-323, um avião enorme, gente, daqueles que cabem uma escola inteira. Segundos depois da decolagem, o motor do lado esquerdo explodiu. Explodiu. Pedaços chamuscados caíram na grama ao lado da pista e ainda começaram um incêndio numa área de mata, porque aparentemente uma tragédia no domingo à noite precisa ter efeito especial para ficar completa.
A torre de controle viu tudo do chão, acionou o piloto, e aí começou o que eu imagino ser os nove minutos e doze segundos mais longos na vida de cada passageiro a bordo. O comandante declarou mayday, acionou os bombeiros do aeroporto e fez o pouso de emergência. Flightradar24 registrou tudo. Meus fofoqueiros de elite, nove minutos e doze segundos é o tempo que eu levo para decidir qual série abrir no streaming, e esse piloto usou esse tempo para pousar um A330 em chamas sem machucar uma alma sequer. Esse homem merece série própria, taça de champanhe e uma estátua no saguão de Guarulhos.
O que me detonou, e olha que meu nível de indigência corporativa já está calibrado, foi a nota da Delta. A companhia informou no site apenas que cancelou o voo DL0104 por “problemas mecânicos” e pediu desculpas pelo inconveniente. Problema mecânico. O motor explodiu em pleno ar, iniciou incêndio na mata e a nota saiu com energia de restaurante cancelando reserva por falta de mesa. Depois, pressionados, mandaram nota oficial falando que o Airbus A330-300 pousou com segurança, que os passageiros foram levados de ônibus até o terminal e que as equipes estão trabalhando para reacomodar todo mundo. Reacomodar. Eles usaram a palavra reacomodar para um episódio que vai aparecer em pesadelo recorrente de 272 pessoas por pelo menos uma década.
Os outros voos do aeroporto foram adiados por conta do ocorrido, porque quando um motor explode na pista e começa fogo no gramado, Guarulhos precisa de um momento para respirar, o que é compreensível. Uma passageira que estava a bordo disse que nunca passou por um desespero tão grande e que sentiu medo de morrer de verdade, meu amor, e eu acredito nela com cada fibra do meu ser porque o que ela viveu foi uma cena que nem roteirista da HBO colocaria no primeiro episódio, guardaria para o season finale. Se tem famoso surtando eu anoto, mas dessa vez estou anotando por todo mundo que estava naquele avião e chegou em casa de ônibus, de madrugada, sem saber muito bem como processá-la. Que venham os terapeutas, os advogados e, principalmente, a explicação técnica completa sobre o que aconteceu com aquele motor, porque “problema mecânico” para mim ainda não fecha a conta.