Eu assisto Morro dos Ventos Uivantes como quem entra numa casa velha sabendo que vai sair carregando encosto emocional. Nada ali é leve, nada ali é fofo, nada ali melhora com o tempo. Aquele amor tem cara de relacionamento que todo mundo avisa para fugir e você insiste porque acha que intensidade resolve tudo. Spoiler da vida. Não resolve.
Heathcliff é o boy problemático versão século XIX, criado à base de humilhação, rancor e um amor atravessado que cresce torto. Cathy é aquela mulher que ama errado com convicção, romantiza o próprio caos e ainda tenta explicar tudo como se fosse destino. Eles se olham como se estivessem se devorando, não como quem constrói algo junto. É desejo misturado com raiva, orgulho, inveja social e uma necessidade absurda de ferir o outro antes de ser ferido.

E eu vou falar. Isso ali não é romance, é assombração afetiva. Heathcliff passa o filme inteiro agindo como viúvo de alguém que ainda está viva, depois vira viúvo de verdade e continua piorando. Ele ama como quem faz pacto espiritual. Chega a pedir para ser perseguido depois da morte. Eu vejo isso e penso em ex que bloqueia, desbloqueia, manda textão de madrugada e diz que nunca vai te esquecer. Só muda a roupa, o surto é o mesmo.
A casa, meus amores, é outra fofoqueira dessa história. Wuthering Heights observa tudo, absorve tudo e devolve em forma de frio, sombra e desconforto. Aquela escada, aqueles corredores, aquele vento eterno. É a materialização do clima emocional do casal. Você entra ali e sente que ninguém foi feliz naquele endereço. Nem os vivos, nem os mortos, nem os que só herdaram o trauma.

Cathy tenta brincar de normalidade ao se aproximar do mundo mais polido, mais aceito socialmente, mais Instagramável da época. Só que o Morro já mora dentro dela. Ela adoece, se fragmenta, perde o corpo enquanto a cabeça continua presa naquele amor que não aceita limites. É o tipo de relação que consome até a saúde física. Nada sutil, tudo escancarado.
Heathcliff, por sua vez, vira gerente oficial do ressentimento. Usa o dinheiro, o poder e a frieza como vingança contínua. Quem cruza o caminho dele vira figurante do próprio ódio. Criança, herdeiro, agregado. Ninguém escapa ileso. O amor que ele sente vira método de destruição em série, com requinte emocional.

E o fantasma que todo mundo espera ver nem precisa aparecer direito. Ele está na repetição do nome de Cathy, na obsessão que não se dissolve, na casa que parece respirar rancor. A morte dela não encerra nada. Só oficializa a prisão emocional de Heathcliff, que passa a viver como se estivesse em diálogo permanente com alguém que não responde mais.
Rever esse filme hoje é quase um curso intensivo sobre relações que a gente ainda insiste em chamar de grandes amores. Aquela paixão ali tem dependência, chantagem emocional, idealização tóxica e uma incapacidade total de deixar o outro existir fora do próprio delírio. O horror não vem do além. Vem do apego que se recusa a morrer.
Eu termino Morro dos Ventos Uivantes sempre com a mesma sensação. Não foi uma história de amor que eu vi. Foi um aviso bem vestido, em preto e branco, dizendo que alguns relacionamentos não acabam. Eles ficam rondando a sua vida feito fantasma, só esperando uma fresta para voltar.