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Kátia Flávia
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Morre Ricardo Fernandes, o homem que ensinou a Sapucaí a desfilar sem tropeçar

Diretor de carnaval marcou Imperatriz Leopoldinense, Salgueiro, Vila Isabel, Grande Rio e Unidos da Tijuca, onde ajudou a construir desfiles históricos e virou referência absoluta em Harmonia.

Kátia Flávia

04/08/2026 8h57

Ricardo Fernandes marcou a história do carnaval carioca como diretor de carnaval e referência em harmonia

Ricardo Fernandes marcou a história do carnaval carioca como diretor de carnaval e referência em harmonia

Morreu nesta segunda-feira (3) Ricardo Fernandes, um dos nomes mais importantes dos bastidores do carnaval carioca. Diretor de carnaval e referência no quesito Harmonia, ele construiu uma trajetória de mais de três décadas na Marquês de Sapucaí e participou de momentos decisivos de escolas como Imperatriz Leopoldinense, Salgueiro, Vila Isabel, Grande Rio, Porto da Pedra e Unidos da Tijuca. A causa da morte não foi informada.

Eu já tinha empurrado o prato das batatas bravas para o lado, com o guardanapo preso debaixo do celular para o vento de Cala Comte não levar minha dignidade junto com a conta, quando chegou a notícia. E essa não é fofoca de bastidor qualquer, minhas queridas. É daquelas que fazem o carnaval inteiro baixar o tom, porque tem gente que não aparece na alegoria, mas segura a escola inteira de pé.

Ricardo começou a trajetória no fim dos anos 1980, na Imperatriz Leopoldinense, justamente no período em que a escola consolidava uma das engrenagens mais respeitadas da história recente dos desfiles. Ali, ajudou a construir um modelo de trabalho baseado em disciplina, planejamento e precisão. No carnaval, isso parece palavra de reunião chata até a escola entrar na avenida sem buraco, sem correria e sem aquela comissão de frente parecendo fila de banco.

Na Unidos da Tijuca, sua passagem virou capítulo especial. Ricardo foi diretor de carnaval da escola em 2003, 2004, 2010, 2011, 2012 e 2013. Participou da reconstrução da agremiação a partir de 2003, esteve no vice-campeonato histórico de 2004 e voltou a fazer parte da equipe que conquistou o título de 2010 com o enredo “É Segredo”, um dos desfiles mais lembrados da era Paulo Barros.

Eu pedi um café com gelo nessa hora, porque Ibiza pode estar linda, mas meu coração foi direto para a Marquês de Sapucaí. Quem acompanha escola de samba sabe: carnavalesco sonha, presidente negocia, comunidade canta, mas diretor de carnaval é quem olha para o relógio, para a ala, para o carro, para o buraco e pensa: “isso aqui não vai desandar no meu nome”.

A própria Unidos da Tijuca lembrou que foi sob seu comando que nasceu a expressão “tecnicamente perfeito”, usada por especialistas para definir desfiles impecáveis. Trabalhando ao lado de nomes como Rosa Magalhães e Paulo Barros, Ricardo virou sinônimo de organização e evolução na avenida. Não era brilho de holofote, era brilho de planilha bem feita, rádio funcionando e gente sabendo exatamente onde tinha que estar.

Em nota de pesar, a Unidos da Tijuca chamou Ricardo de “menestrel do quesito Harmonia” e destacou sua obstinação, disciplina e a revolução que ajudou a promover na organização dos desfiles. A escola também lembrou que ele formou discípulos e influenciou profissionais que hoje ocupam funções semelhantes no carnaval.

A frase é bonita, mas também é muito verdadeira. Porque o carnaval vive de memória, e memória não é só samba antigo nem fantasia guardada em barracão. Memória também é método. É o jeito de organizar uma concentração, de conduzir uma evolução, de impedir que o sonho de uma escola vire desespero antes do recuo da bateria.

Eu olhei para o mar de Cala Comte, azul demais para combinar com notícia triste, e pensei que Ricardo Fernandes pertence a essa categoria rara de gente que não precisava estar no carro abre-alas para ser gigante. Ele estava nos bastidores, no comando, no detalhe. E, no carnaval, detalhe às vezes vale mais que luxo.

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