Eu estava no Café Mambo, em Ibiza, com o sol já descendo atrás do mar e a taça esquecida na mesa, quando a notícia chegou. Tem mensagem que muda o clima de qualquer lugar. Fechei a tela por alguns segundos, respirei e voltei a ler com aquele silêncio que aparece quando a fofoca dá lugar ao luto.
Morreu aos 49 anos a atriz, cantora, poetisa e dubladora Clodd Dias, conhecida pelos trabalhos em Manhãs de Setembro e As Five. A morte foi confirmada pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo (Sated-SP). A causa não foi divulgada.

Nascida em Itapetininga, no interior paulista, Clodd começou a atuar aos 14 anos e se formou no Centro de Artes Célia Helena, em 2001. Ao longo da carreira, construiu uma trajetória que passou pelo teatro, cinema, televisão e streaming, sempre marcada pela força de sua presença artística.
Mulher trans negra, tornou-se uma das principais referências de representatividade LGBTQIAPN+ nas artes cênicas brasileiras. Fez parte de coletivos importantes, como o Coletivo Negro e o Pessoal do Faroeste, ajudando a ampliar espaços para artistas trans dentro da cena cultural.
O papel de maior reconhecimento nacional veio em Manhãs de Setembro, série do Prime Video estrelada por Liniker. Na produção, interpretou Roberta, melhor amiga da protagonista Cassandra, personagem que ajudou a consolidar a série como um dos principais marcos de representatividade trans no audiovisual brasileiro.
Eu lembro bem do impacto daquela série. Não era apenas um elenco diverso ocupando espaço em uma plataforma de streaming. Era uma história sendo contada por quem, durante muito tempo, ficou do lado de fora dessas narrativas. E Clodd fazia isso com uma delicadeza que dispensava discursos.
A atuação lhe rendeu o Prêmio Arcanjo de Cultura, em 2021. Na ocasião, o crítico Miguel Arcanjo Prado definiu a artista como “uma atriz de rara sensibilidade e uma joia rara da cultura brasileira”.
Clodd também integrou o elenco da segunda temporada de As Five, produção do Globoplay derivada de Malhação: Viva a Diferença. No cinema, participou de filmes como O Clube das Mulheres de Negócios, de Anna Muylaert, além de Rodeio Rock, Dois Mais Dois e Lugar pra Ninguém.
Nos palcos, construiu uma carreira sólida em espetáculos como Entrega para Jezebel, Mãe de Santo, Esperando Godot e O Céu Fora Daquela Janela, montagem apresentada neste ano no Sesc Vila Mariana.
A artista também deixa gravada a série inédita Tarã, produção do Disney+ que reúne Xuxa Meneghel e Angélica no elenco e ainda não foi lançada.
A notícia provocou uma onda de homenagens nas redes sociais. Ruy Cortez escreveu “Tristeza absoluta”. Mel Lisboa lamentou: “Triste demais”. Marcelo Médici publicou “Que tristeza”, enquanto Grace Gianoukas resumiu o sentimento de muitos colegas: “Que notícia difícil de aceitar”.

Aqui em Ibiza, enquanto a música seguia tocando em um volume que já não combinava com a notícia, fiquei pensando no tamanho dessa ausência. Clodd Dias não deixa apenas personagens importantes. Deixa uma trajetória construída com talento, coragem e representatividade, abrindo caminhos para artistas que vieram e ainda virão depois dela.
Segundo a Folha de S.Paulo, o velório e o sepultamento acontecem nesta sexta-feira (7), no Cemitério da Vila Formosa, na Zona Leste de São Paulo.