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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Morre Carlos Monforte, jornalista que ajudou a criar o telejornalismo brasileiro, aos 77 anos

Primeiro apresentador do “Bom Dia Brasil”, ele construiu uma carreira de quase quatro décadas na Globo e esteve no centro de uma das conversas políticas mais marcantes da TV

Kátia Flávia

31/08/2026 10h45

Carlos Monforte foi um dos primeiros âncoras do telejornalismo brasileiro

Carlos Monforte foi um dos primeiros âncoras do telejornalismo brasileiro

O jornalista Carlos Monforte morreu neste domingo (31), aos 77 anos. A informação foi comunicada pela GloboNews, e a causa da morte não havia sido divulgada até a última atualização. Um dos pioneiros do formato de âncora no Brasil, ele construiu uma trajetória de quase 40 anos na TV Globo e na GloboNews.

Eu tinha acabado de sair do pilates e esperava o carro para voltar ao Cosme Velho quando vi a notícia. Fiquei parada na calçada com a garrafa d’água na mão. Há nomes que, para quem cresceu vendo jornal, não chegam como simples informação: parecem o fim de uma época.

Nascido em Santos, em 1949, Monforte começou no jornal A Tribuna antes de passar por O Estado de S. Paulo. Entrou na Globo em 1978 como repórter local em São Paulo e acompanhou, entre outras coberturas, as greves dos metalúrgicos no ABC.

Em 1983, assumiu a missão de apresentar e editar o recém-criado Bom Dia Brasil, primeiro telejornal da Globo gerado diretamente de Brasília. O programa teve de ser estruturado em cerca de 20 dias e ganhou um formato que misturava política, economia, entrevistas ao vivo e os bastidores do poder.

Entrei no carro e fiquei lembrando do que ele dizia sobre ser âncora. Monforte não gostava muito do peso que a palavra ganhou por aqui. “O âncora americano é o que apresenta o jornal, simplesmente. Ele não dá um palpite, não dá uma opinião”, explicou ao projeto Memória Globo. Para ele, no Brasil, o âncora também era editor-chefe: definia o que entrava no ar e a ordem dos assuntos.

Depois de uma passagem pela Confederação Nacional da Indústria, ele retornou à Globo em 1994 como repórter especial do Jornal da Globo, em Brasília. Foi naquele período que seu nome ficou ligado a um dos episódios mais memoráveis da política brasileira: a conversa informal do então ministro da Fazenda Rubens Ricupero, captada acidentalmente por antenas parabólicas antes de uma entrevista.

O vazamento repercutiu nacionalmente e levou Ricupero a deixar o cargo. Monforte contou depois que passou dois dias sem dormir, preocupado com as consequências daquele momento, e insistiu que não havia provocado o episódio nem agido contra a ética jornalística.

Na GloboNews, foi coordenador em Brasília, comandou o Jornal das Dez e participou de programas como Espaço Aberto, GloboNews Política e Fatos e Versões. Deixou a emissora em 2016, após uma carreira que atravessou a redemocratização, a criação do Plano Real e décadas de cobertura política.

Cheguei em casa e deixei a bolsa no aparador antes de subir. Carlos Monforte ajudou a ensinar o país a acordar com notícia, entrevista e Brasília no centro da tela. Hoje, o jornalismo brasileiro se despede de uma voz que viu muita história acontecer de perto.

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