O diretor, roteirista e cineasta Ricardo Spencer morreu aos 46 anos. A informação foi confirmada por familiares nesta segunda-feira, e a causa da morte não foi divulgada. Baiano, ele deixou uma trajetória marcante em videoclipes, séries e novelas, incluindo a direção de Segundo Sol e do clipe Flutua, de Johnny Hooker com Liniker.
Eu deixei o celular carregando e fiquei alguns minutos em silêncio na sala. Tem gente cuja assinatura a gente reconhece sem saber o nome, até descobrir que por trás de tantas imagens que marcaram uma geração havia um mesmo olhar: Ricardo Spencer filmava música, afeto, Bahia e Brasil com uma força rara.

Neto da atriz Nilda Spencer, referência do teatro baiano, Ricardo cresceu cercado de arte. Formou-se em Artes e se especializou em Estética do Cinema na UCLA, nos Estados Unidos, antes de construir uma carreira que atravessou Salvador, o circuito musical brasileiro e a dramaturgia da Globo.
Nos videoclipes, trabalhou com nomes como Pitty, Rita Lee, Criolo, Emicida, Sandy, Aurora, Vanguart, Boogarins, Cachorro Grande, Johnny Hooker e Liniker. Flutua, lançado em 2017, virou um de seus trabalhos mais lembrados, tanto pela potência artística quanto pela importância para a representação LGBTQIA+ na música brasileira.
Eu fui até a janela e pensei que esse é o tipo de legado que continua aparecendo quando a gente aperta play. Ricardo dirigiu imagens que entraram na vida das pessoas sem pedir licença, em canções ouvidas no quarto, em clipes compartilhados como declaração e em histórias que ajudaram muita gente a se reconhecer.
Na TV Globo, ele chegou primeiro dirigindo videoclipes de Mister Brau, com Lázaro Ramos e Taís Araújo. Depois, assumiu também a dramaturgia da série e integrou as equipes de Segundo Sol, Shippados, Segunda Chamada, Todas as Mulheres do Mundo, Amor e Sorte, Cine Holliúdy e Vermelho Sangue.
Seu trabalho recebeu reconhecimento da APCA e indicação ao Emmy Internacional. Não era apenas um diretor de projetos grandes: era um criador com repertório, identidade e disposição para atravessar linguagens sem perder a ligação com a cultura baiana.

Eu encostei a mão no parapeito e voltei aos projetos que ele deixou em desenvolvimento. Entre eles estavam o longa Tudo Sobre Minha Avó, sobre Nilda Spencer, e a série Roma Negra, pensada para retratar Salvador nos anos 1970, os blocos afro e a resistência do movimento negro. Obras que mostram bem de onde vinha a matéria-prima dele.
Ricardo Spencer partiu cedo demais, aos 46 anos, mas deixa uma filmografia que continua viva em cada tela. E, numa tarde em que tanta coisa disputa atenção, essa é a notícia que pede pausa: o audiovisual brasileiro perdeu um diretor que entendia de imagem, música e memória.