Mônica Martelli, de 58 anos, falou sem rodeios sobre desejo, relacionamento e menopausa em entrevista ao O Globo. A atriz contou que continua vivendo a sexualidade com entusiasmo e resumiu a fase atual com uma frase que já nasceu pronta para circular: está “comprando calcinha para usar com o namorado”.
Eu já estava na Lagoa, caminhando com as amigas depois de sair do Cosme Velho, quando a frase apareceu no grupo. Não parei a caminhada, mas diminuí o passo para ler direito. Porque não era uma frase jogada para causar: Mônica estava falando de uma fase da vida que ainda tentam vender como se fosse o fim do desejo feminino.
A atriz está promovendo Minha Melhor Amiga, filme que estreia em 3 de setembro e marca seu encontro no cinema com Ingrid Guimarães, de 54 anos. Dirigido por Susana Garcia, irmã de Mônica, o longa acompanha duas amigas que viajam a Portugal para reencontrar as filhas adolescentes.

Enquanto uma amiga contava uma história de aplicativo de namoro e outra fingia que não estava ouvindo, eu fiquei pensando que Mônica tem uma qualidade rara: ela fala de envelhecer sem entrar naquela obrigação cafona de parecer ter 25 anos. Aos 58, ela não está tentando vender juventude. Está falando de namorado, desejo e calcinha nova como quem fala de uma compra normal. Porque é.
Mônica e Ingrid se conhecem há três décadas, desde os tempos de Chico Total, e também trabalharam juntas em Por Amor, em 1997. A intimidade das duas foi parar na tela. Durante as filmagens em Portugal, Ingrid perguntou à diretora se elas não ensaiariam; Susana respondeu que as duas já ensaiavam havia 30 anos.
O filme também brinca com relações contemporâneas, maternidade, redes sociais e os tais “casais PJ”, quando afeto começa a parecer reunião de alinhamento. As personagens se chamam Julia e Clara, nomes escolhidos em homenagem às filhas adolescentes das atrizes, ambas com 16 anos.

A caminhada seguia pela Lagoa, e uma das amigas soltou que a frase da calcinha dizia mais sobre liberdade do que muito discurso pronto de autoestima. Concordei. Existe uma tentativa constante de empurrar mulheres maduras para um lugar de discrição, como se desejo tivesse data de validade e lingerie fosse privilégio de gente jovem.
Mônica construiu boa parte da carreira transformando a própria vida amorosa em humor. Foi assim em Os Homens São de Marte… E é Pra Lá que Eu Vou, peça que virou fenômeno, série e filme. Ingrid fez caminho parecido, do sucesso de Cócegas com Heloísa Périssé à franquia De Pernas pro Ar. Agora, as duas usam a amizade para contar uma história que não depende de mocinha, príncipe ou final perfeito.
A gente ainda estava decidindo se seguia até o próximo trecho ou se fazia uma parada para água de coco quando guardei o celular. Mônica Martelli já tinha dado a lição do domingo: menopausa não fecha loja nenhuma. Às vezes, só inaugura uma seção mais interessante.