Eu estava na varanda da casa em Sintra, taça de vinho verde na mão e a serra já escurecendo, quando o telefone tocou do Brasil. Larguei a taça no parapeito e fiquei de pé. Mike Tyson volta ao país depois de 15 anos, anunciou ele mesmo em vídeo, e já tem endereço marcado: o estande da Futurola na ExpoCannabis Brasil 2026, em São Paulo. Gente, que loucura.
O Tyson que desembarca em novembro chega de pasta executiva. Ele fundou a Tyson 2.0, marca que vende flores, vaporizadores, comestíveis e acessórios em mercados regulamentados dos Estados Unidos, como Nova York. Aqui a conta muda de figura, porque a venda recreativa segue proibida no Brasil. O negócio então é de vitrine: a feira ganha a manchete que vende ingresso e patrocínio, e ele planta o nome num mercado que ainda não pode abastecer.

Agora o bastidor que me faz aplaudir esse homem como empresário. O produto mais famoso da marca são as Mike Bites, gomas em formato de orelha, piada assumida com a mordida que ele deu em Evander Holyfield no ringue em 1997. Quase trinta anos depois, o CEO da Mordida transformou o pior momento da carreira em linha de produto com código de barras. Tem executivo da Faria Lima que passa a vida inteira tentando apagar escândalo, e ele pôs o dele no rótulo.
A ExpoCannabis Brasil é franquia da ExpoCannabis Uruguai e chega à quarta edição com o tema “Para Além da Planta”. A trajetória explica a contratação: foram 21 mil visitantes em 2022, 40 mil em 2023 e 42 mil em 2024. O salto virou passinho, e agora a organização projeta entre 47 mil e 50 mil pessoas em três dias. Nada como um peso pesado para destravar o gráfico.
A CEO Larissa Uchida chamou a vinda dele de marco e disse que ela mostra o interesse que o mercado brasileiro desperta lá fora. Frase de palco, claro, mas a lógica fecha: nome global atrai imprensa global, e imprensa global atrai quem assina cheque de patrocínio.
Para quem pretende ir, o recado é prático. A entrada é só para maiores de 18 anos, e não conte com Mike Bites na sacola, porque o que é produto nos Estados Unidos continua fora da prateleira aqui. Para a feira, o risco mora na dependência de um nome só: se a meta de 50 mil pendura numa orelha famosa, a edição pós Tyson vai precisar de outro soco.
Daqui de Sintra, eu brindo de longe. O homem já transformou orelha em faturamento. Imagina o que faz com três dias de corredor lotado em São Paulo.