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Kátia Flávia
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Miguel Falabella reúne clássicos e revive joias do teatro

Novo livro da Matrix Editora reúne quatro textos marcantes de Miguel Falabella, escritos entre 1990 e 2025. A coletânea traz A partilha, O som e a sílaba, A sabedoria dos pais e Os olhos de Nara Leão em um só volume.

Kátia Flávia

10/03/2026 17h00

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Autor reúne textos que atravessam décadas de sua produção dramatúrgica e permanecem vivos justamente por tratarem de temas essencialmente humanos (Foto: Divulgação)

Meu povo, eu tive que dar aquela parada dramática de camarim porque Miguel Falabella resolveu fazer um movimento que eu respeito profundamente: abrir o baú chique da própria dramaturgia e colocar quatro joias do teatro brasileiro no mesmo pacote. Em A partilha e outras peças teatrais, lançado pela Matrix Editora, o autor reúne textos que atravessam décadas e continuam vivos porque mexem justamente naquilo que mais bagunça a vida de qualquer cristão elegante, memória, afeto, perda, mágoa, reconciliação, família e aquele ressentimento fino que senta à mesa sem ser convidado.

A coletânea junta A partilha, O som e a sílaba, A sabedoria dos pais e Os olhos de Nara Leão, escritas entre 1990 e 2025. E eu digo com a minha taça imaginária na mão, isso aqui tem cara de reunião de elenco de novela muito bem escrita, só que com inteligência cênica, frase afiada e sentimento de verdade. Falabella entende palco como território de tensão humana, daquele tipo em que a dor entra bem vestida, o humor salva a noite e ninguém sai exatamente igual ao que entrou.

A partilha, claro, chega como a veterana poderosa dessa roda. A peça acompanha o reencontro de quatro irmãs depois da morte da mãe e transforma a divisão de bens numa lavação emocional de altíssimo nível. Tem humor, tem nostalgia, tem ferida antiga e tem aquele ambiente de família em que basta alguém abrir uma gaveta para cair um passado inteiro no chão. Eu adoro porque é teatro com cheiro de sala de estar e alma de campo de batalha afetivo.

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Capa do livro A partilha e outras peças teatrais (Foto: Divulgação)

Em O som e a sílaba, Falabella aborda inclusão e singularidade a partir da relação entre uma jovem cantora autista e sua professora de canto. A peça reflete sobre técnica, emoção e pertencimento, sem perder delicadeza. Aqui o autor entra num terreno sensível e faz isso com o tipo de generosidade que falta em muito discurso bonito por aí. Tem humanidade, tem observação fina e tem respeito pelos personagens, coisa que eu, Kátia Flávia, percebo de longe como quem percebe joia verdadeira em evento lotado.

Já A sabedoria dos pais mergulha no fim de um casamento de 35 anos e disseca aquelas estruturas familiares que vivem de silêncio, pacto mal costurado e mágoa acumulada em camadas. É o tipo de trama que olha para o casal, para os filhos e para a casa inteira como se a decoração também soubesse demais. Isso aqui, meus fofoqueiros de elite, é puro material de dramaturgia autoral de primeira, porque fala do íntimo sem perder alcance.

E Os olhos de Nara Leão vem com a elegância introspectiva de quem sabe que grandes artistas também são feitos de dúvida, escolha, finitude e resistência às classificações preguiçosas. O monólogo propõe esse mergulho na identidade de uma mulher que nunca coube direito em rótulo de prateleira. Eu li essa proposta e já imaginei luz baixa, plateia em silêncio respeitoso e um texto fazendo o trabalho que só texto bom faz, entrar pela cabeça e ficar morando um tempo.

Ao longo do volume, Falabella reafirma uma marca que acompanha sua trajetória, personagens reconhecíveis, diálogos diretos, humor, ironia e uma habilidade rara de lidar com temas espinhosos sem tornar tudo pesado como palestra de auditório corporativo às oito da manhã. São textos que foram além do palco e também tocaram cinema, televisão e o imaginário do público, sempre com essa mistura de inteligência e afeto.

E convenhamos, Miguel Falabella tem repertório para fazer esse movimento sem parecer álbum de figurinhas da própria vaidade. O homem é ator, dramaturgo, escritor, roteirista, diretor e apresentador, com personagens icônicos como Caco Antibes, uma passagem histórica pelo Vídeo Show e criações para TV como Salsa e Merengue, A Lua me Disse, Toma Lá Dá Cá e Pé na Cova. No teatro, ainda assina e dirige montagens que viraram referência, como A Partilha, Hairspray, A Gaiola das Loucas, Hebe – O Musical, Annie e Donna Summer Musical. Ou seja, não estamos falando de alguém que apareceu ontem com uma caneta na mão e boa vontade no currículo.

O livro tem 216 páginas, custa R$ 65 e pode ser encontrado na Matrix Editora e na Amazon. Eu acho uma delícia quando um lançamento desse tipo serve tanto para leitor curioso quanto para ator, diretor, estudante e gente que simplesmente gosta de texto com carne, osso e contradição. Porque teatro bom faz isso, encara a vida de frente, bota luz onde dói e ainda arranca um riso no meio do caos. Miguel Falabella sabe muito bem onde pisa, e esse volume deixa isso impresso, encadernado e prontinho para voltar ao centro da cena.

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