Eu estava na varanda de um hotel em Amalfi, aquele tipo de lugar onde o mar bate na rocha com uma brutalidade bonita que faz pensar na vida, quando uma amiga me ligou pra contar sobre Michele Andrade e o clipe novo. Não foi o celular estourando de notificação, foi ligação mesmo, voz humana, aquela coisa rara. E ela contou com tanto cuidado que eu entendi imediatamente que essa história pedia o mesmo.
Michele Andrade, um dos nomes que mais cresceu na música brasileira nos últimos tempos, chegou ao Abril Azul, mês de conscientização sobre o autismo, com algo concreto pra mostrar. O clipe “Eu Posso Ser” foi inspirado num encontro nos bastidores do Carnaval de Natal, quando a cantora conheceu Dandara, de 3 anos, e Daffiny, de 4, duas pequenas fãs autistas. As meninas viraram protagonistas do audiovisual, que retrata histórias reais de amor e força sem nenhum grampo de marketing por cima. A relação da Michele com a causa não é de hoje: ela convive com o autismo através de um primo e de uma sobrinha, e nos camarins faz questão de criar um ambiente que funcione de verdade para crianças com TEA.
A repercussão do clipe chegou junto com relatos que circularam entre mães de todo o Brasil, histórias de crianças que usam a música da Michele para se acalmar, para prestar atenção, para se expressar. Isso não é press release, é o tipo de coisa que chega no direct sem que ninguém pediu, porque é real.
Olha, tem artista que levanta bandeira de causa como quem coloca adesivo no carro: fica lá, bonito, sem consequência nenhuma. Michele fez diferente. Ela deixou duas meninas de três e quatro anos protagonizarem um clipe, sem filtro de agência, sem roteiro de consultoria. Isso tem um nome, e o nome não é marketing, é coragem editorial.
Kátia encerra aqui, ainda com o mar de Amalfi batendo lá embaixo, registrando que neste Abril Azul a música brasileira ganhou um clipe que vai durar muito mais que o mês. Dandara e Daffiny estão num vídeo pra sempre. Isso vale mais que qualquer campanha.