Amiga, respira fundo e vem comigo porque o bafo aqui é pesado. O médico baiano Gabriel Almeida, aquele mesmo que vivia cercado de famosos, livros de emagrecimento e clínicas cheias, acordou hoje com a Polícia Federal batendo à porta. E não foi em qualquer porta: foi em clínica de luxo, mansão nos Jardins, em São Paulo, e em endereços na Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. Tudo dentro da Operação Slim, que mira a produção e venda ilegal de Mounjaro (tirzepatida), queridinho do momento no mercado de emagrecimento.
Gabriel Almeida construiu a imagem de “médico das estrelas”: cirurgião geral, especialista em emagrecimento, autor de livros como Saúde Além do Tempo e Efeito Sanfona e fundador do Núcleo GA, com unidades em Salvador, Feira de Santana e outras cidades.
Ao longo dos anos, virou referência em “qualidade de vida” e “emagrecimento saudável”, sempre cercado de celebridades: nomes como Léo Santana, Nicole Bahls, Scheila Carvalho, Tony Salles, Pablo, Márcio Victor, Lívia Andrade, Lore Improta e Tirullipa já foram associados ao seu consultório, reforçando a aura de “médico das celebridades”.
Quando decidiu expandir para São Paulo, não foi modesto: o Núcleo GA paulistano foi planejado para funcionar num casarão de 1.000 m² na Avenida Brasil, nos Jardins, com projeto assinado por escritório de arquitetura badalado e equipe de dezenas de médicos sob sua batuta.
Segundo a Polícia Federal, a Operação Slim mira uma quadrilha formada por profissionais de saúde, clínicas e laboratórios acusados de fabricar ilegalmente o Mounjaro, medicamento à base de tirzepatida indicado para diabetes tipo 2 e amplamente usado em protocolos de emagrecimento.
O foco central da investigação é justamente Gabriel Almeida, apontado pela PF como principal alvo ou um dos líderes do esquema. Ele teria usado a estrutura do seu grupo para, manipular tirzepatida sem autorização da Anvisa e sem o devido pagamento de patente, como se fosse a própria fabricante do medicamento, produzir canetas emagrecedoras em série, em escala quase industrial, prática proibida no modelo de farmácia de manipulação magistral, realizar envase, rotulagem e distribuição de forma irregular, sem seguir os padrões sanitários exigidos, vender o produto pelas redes sociais e plataformas digitais, prometendo emagrecimento e passando a impressão de que tudo era regularizado.

De acordo com os relatos da PF divulgados à imprensa, a estrutura do grupo incluía laboratórios clandestinos e áreas de armazenamento de insumos e canetas, com condições consideradas incompatíveis com os padrões de segurança sanitária, na prática, um grande “depósito” de produtos sensíveis ligado a um esquema que funcionaria à margem das regras.
Ao todo, a operação cumpre 24 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, com apreensão de carros de luxo, relógios caros e até aeronaves em nome de supostos laranjas ligados ao grupo.
O que dá o tempero dramático à história é o cenário: Gabriel atende em uma mansão nos Jardins, área nobre de São Paulo, apresentada nas notas sociais como um espaço de alto padrão para tratamentos de emagrecimento, performance e estética, com equipe multidisciplinar.
Agora, esse mesmo endereço entra na rota da PF como ponto chave de um suposto esquema clandestino, onde a fachada de luxo contrasta com as suspeitas sobre o que acontecia nos bastidores – tanto nas salas de atendimento quanto na engrenagem de produção e armazenamento dos medicamentos usados nos protocolos.
Em linguagem bem pé na porta, amiga, o que a PF coloca em xeque é o seguinte: produção sem licença: tirzepatida manipulada sem a devida autorização sanitária, como se o grupo fosse laboratório oficial , e não era, patente ignorada: o uso da substância, segundo a investigação, não respeitava as regras de patente e propriedade da fabricante do Mounjaro, que inclusive teria feito denúncia inicial, condições sanitárias questionadas: a PF fala em estrutura incompatível com os padrões sanitários, com envase, rotulagem e distribuição sem controle mínimo de qualidade, esterilidade ou rastreabilidade, marketing agressivo: as postagens e anúncios digitais, segundo a polícia, induziam o consumidor a acreditar que a produção rotineira de tirzepatida era permitida, empurrando tratamentos como se fosse tudo “dentro da lei”.
Traduzindo: além da suspeita de falsificação e produção clandestina, pesa a acusação de enganar o público, usando a força das redes sociais e o selo de “médico das celebridades” para vender segurança onde a PF enxerga risco sanitário.
Até o momento, a investigação está em andamento e não há condenação. Em declarações divulgadas por representante jurídico do médico, a linha é de que Gabriel Almeida vai prestar todos os esclarecimentos e demonstrar a “completa legalidade da situação”.
Do lado das autoridades, a PF e a Anvisa falam em crime contra a saúde pública, fraude sanitária e possível enquadramento em legislação de medicamentos falsificados, além da análise minuciosa de tudo o que foi apreendido , documentos, insumos, equipamentos e as próprias canetas emagrecedoras.
Enquanto isso, amiga, a pergunta que fica é: até onde vai a cultura do “corpo perfeito a qualquer custo” quando encontra o limite da lei e da segurança sanitária?
Porque uma coisa é influencer postar “antes e depois” com legenda motivacional. Outra, bem diferente, é quando a história vira caso de Polícia Federal, operação batizada, laboratórios clandestinos e mansão nos Jardins na mira do mandado de busca. Aí não é só dieta da moda: é caso de polícia mesmo.