A aula inaugural do curso de Medicina da Escola Superior de Ciências da Saúde não começou com elogios à técnica nem com discursos celebratórios sobre a profissão. Começou com uma pergunta incômoda. Que tipo de médico o Brasil está formando.
Convidada para abrir o ano letivo, a médica, pesquisadora e professora da Universidade de Brasília Licia Mota levou para o centro do debate a crise silenciosa da medicina contemporânea. Em vez de gráficos ou protocolos, ela recorreu à arte. A obra O Friso de Beethoven, de Gustav Klimt, serviu como metáfora para discutir propósito, sofrimento e esgotamento ao longo da trajetória médica.
A aula foi organizada em três movimentos simbólicos. O primeiro, o chamado, representa o idealismo que leva o estudante a escolher a medicina. O segundo, as forças hostis, expõe a realidade da prática profissional, marcada por sobrecarga, dilemas éticos, frustração clínica e risco crescente de burnout. O terceiro, a redenção pelo sentido, aponta para a maturidade profissional construída quando técnica, ética e humanidade deixam de caminhar separadas.
Ao falar diretamente aos calouros, Licia evitou romantizações. Defendeu que excelência médica não nasce automaticamente do diploma e que o vazio de propósito é hoje um dos principais fatores de adoecimento na profissão. Segundo ela, formar médicos exige mais do que transmitir conhecimento técnico. Exige criar espaço para reflexão crítica sobre limites, responsabilidade e cuidado com quem cuida.
O encontro acontece em um momento simbólico para a ESCS, que celebra 25 anos de atuação e é reconhecida por seu modelo de ensino integrado ao Sistema Único de Saúde. Nesse contexto, a escolha do tema funciona como um alerta. Ignorar o sofrimento psíquico e os dilemas éticos da prática médica tem custo alto, tanto para os profissionais quanto para a qualidade da assistência.
Ao levar Klimt para a sala de aula, Licia Mota não propôs respostas fáceis. Propôs desconforto. E deixou claro que pensar o futuro da medicina passa, necessariamente, por encarar suas crises de frente.