Eu juro que tentei fingir costume, mas essa história chegou daquele jeito que dá um nó no estômago e derruba qualquer pose de glamour. MC Tuto, nome artístico de Emerson Teixeira Muniz, saiu do hit para o noticiário policial num piscar de farol alto. O palco virou asfalto. O refrão virou sirene.
Segundo o boletim de ocorrência, o funkeiro dirigia um Porsche em velocidade considerada incompatível com a via. Em bom português. Rápido demais, imprudente demais, confiante demais. Tudo isso em uma área restrita a pedestres, no meio de uma gravação de clipe sem autorização oficial. A produção chamava cena ousada. A realidade respondeu com um atropelamento.

A vítima é Gabriel Luiz Berrelhas Alves, de 20 anos, socorrido em estado grave e levado ao Hospital Municipal Francisco Moran. A partir daí, o enredo muda de tom. Em vídeo que circulou nas redes sociais, a mãe do jovem aparece visivelmente abalada, mostrando o estado do carro e falando sobre o estado do filho. Não tem efeito especial que segure esse momento. É dor nua, crua, sem trilha sonora.
A polícia enquadrou o caso como tentativa de homicídio com dolo eventual. Tradução da colunista que já viu muito capítulo torto. Quando alguém assume o risco de causar uma tragédia e segue mesmo assim, a Justiça entra em cena sem pedir bis. MC Tuto foi preso em flagrante e, após audiência de custódia, teve a prisão temporária convertida em preventiva.

Além do veículo de luxo, aparelhos eletrônicos foram apreendidos para ajudar nas investigações. O clipe, que nasceu para bombar na internet, agora serve como prova. O Porsche, antes símbolo de ostentação, virou peça de inquérito. O artista trocou o camarim pela cela e o close pelo silêncio obrigatório.
Eu, Kátia Flávia, olho para tudo isso e vejo um roteiro que se repete com figurino diferente. Sucesso acelerado, sensação de imunidade e a crença perigosa de que fama também freia consequências. A rua não perdoa, o asfalto não aplaude e a vida real não aceita edição.