Meus amores, hoje a coluna acordou de preto, coturno pesado e coração apertado. O mundo do rock, que costuma gritar dor em amplificador no máximo, foi obrigado a sussurrar respeito diante da notícia anunciada por Max Cavalera. A filha dele, Christina, morreu após uma longa batalha contra uma doença que a família preferiu não detalhar. A mensagem foi compartilhada ao lado da esposa, Gloria, e caiu como um riff triste no colo de fãs ao redor do planeta.
Christina, cujo nome completo era Christina Stojanovic, não era filha biológica de Max, mas sempre foi tratada como tal. E aqui, meus queridos, isso diz tudo. Família de verdade não é DNA, é convivência, é presença, é segurar a barra nos bastidores enquanto o palco brilha para outro lado. Ela esteve profundamente ligada à trajetória do pai no rock e construiu uma carreira própria longe dos holofotes óbvios.
Durante anos, Christina atuou como tour manager e assistente da banda Soulfly, projeto criado por Max após sua saída do Sepultura. Entre 1997 e 2021, ela ajudou a organizar turnês, promover bandas e abrir caminhos em um universo historicamente hostil para mulheres. Nos textos de homenagem, a família a define como pioneira no metal, punk e rock, alguém que saiu do underground para arenas internacionais sem pedir licença.
A dor anunciada por Max carrega camadas que só quem viveu o rock por dentro entende. Christina deixa filhos, irmãos e uma história marcada por força, generosidade e uma presença que, segundo quem conviveu com ela, iluminava qualquer ambiente. O texto divulgado pede respeito à privacidade da família e fala de uma jornada difícil, agora atravessada sem ela.
Há ainda uma camada de tragédia que parece escrita por um roteirista cruel. Um dos filhos de Christina, Moses, morreu ainda bebê e foi homenageado por Max em uma música da Soulfly. Essa perda, inclusive, ajudou a inspirar o álbum Dark Ages. O rock, meus amores, às vezes nasce da dor mais funda, daquela que não cicatriza.
Eu, Kátia Flávia, fico aqui pensando como até os deuses do metal sangram em silêncio doméstico. O palco pode ser gigante, o som pode estremecer estádio, mas a perda de uma filha desmonta qualquer mito. Hoje não tem deboche, não tem veneno, não tem ironia. Só respeito, memória e um luto que ecoa mais alto que qualquer guitarra.