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Kátia Flávia
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Marina Lima chega perto dos 71 rodando o Brasil e diz que mudaria quase tudo

A cantora falou ao O GLOBO sobre os ganhos da maturidade às vésperas de completar mais um ano e no meio de uma turnê que começou em março. Segundo ela, com a idade vem empatia pela versão mais nova da gente, e também exigência.

Kátia Flávia

27/07/2026 10h45

Marina Lima falou sobre envelhecimento, carreira e maturidade durante entrevista ao O GLOBO. - Créditos: Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo

Marina Lima falou sobre envelhecimento, carreira e maturidade durante entrevista ao O GLOBO. – Créditos: Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo

Estou na cadeira do cabeleireiro com a raiz na metade do processo, aquele momento em que ninguém pode se levantar por decreto químico, e leio a entrevista da Marina Lima em que ela conta que vai fazer 71 anos daqui a menos de dois meses. Repeti o número em voz alta. O rapaz que estava aplicando a tintura me olhou pelo espelho com cara de quem já ouviu esse grito antes. Setenta e um. E a mulher está rodando o Brasil inteiro desde março.

Explicando direito para quem estava distraído. Marina Lima estreou no fim de março, em Porto Alegre, o show “Marina 70“, que celebra os setenta anos completados em setembro do ano passado e mistura os clássicos com faixas do disco recém-lançado, “Ópera grunkie“. No domingo ela se apresentou no Enel Festival de Inverno Rio, na Marina da Glória, às cinco da tarde, cercada pelo mar da cidade onde nasceu. Carioca radicada em São Paulo, ela disse que os amigos vivem lembrando que existe mar em outros lugares, e que ela responde sempre a mesma coisa: o mar em que ela quer entrar é o do Rio de Janeiro. Contou também que os sucessos atemporais dela saíram daqui, citando “Fullgás“, “Pra começar” e “Acontecimentos“.

A parte que mais me pegou foi a virada de relação dela com o palco. Marina admitiu que durante muito tempo preferia o estúdio, porque gosta de fazer arranjo, de compor com calma, e se define como detalhista ao extremo. O show, no passado, funcionava como repetição do que ela já havia alcançado na gravação. Hoje ela diz que o público virou elo com a própria existência, e que ver plateia inteira cantando junto é uma intimidade difícil de explicar. Chamou isso de ser trilha sonora da vida das pessoas. Quem construiu carreira dentro de estúdio e passou a vida fugindo de holofote entender isso aos setenta é uma reviravolta bonita de acompanhar.

E tem a frase que eu vou levar comigo para a próxima década. Perguntada sobre o que faria diferente se pudesse rever a trajetória, ela respondeu que quase tudo. Explicou que a idade traz distanciamento, que a gente enxerga onde tropeçou e por quê, e que a maturidade vem acompanhada de duas coisas simultâneas: mais empatia pela pessoa que a gente era e mais exigência com o que ainda está por vir. Disse que existe responsabilidade em lidar com a sabedoria que o tempo entrega. Vindo de quem enterrou o irmão e parceiro musical Antonio Cicero em 2024 e voltou aos palcos com disco novo debaixo do braço, essa fala tem peso de quem pagou para aprender.

Saí do salão com a raiz impecável e um incômodo delicioso. Passo a vida correndo de agenda em agenda achando que estou no limite, e essa mulher atravessa o país inteiro com show novo, disco novo e disposição para dar entrevista falando de vida com essa lucidez toda. Anotei o recado. E se alguém aqui do Rio de Janeiro ainda tiver dúvida sobre onde ela quer nadar, a resposta já foi dada, em alto e bom som, na Marina da Glória.

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