Eu estava saindo de um café no Brera, fazendo cara de quem só pensa em arte e espresso, quando uma amiga me manda a foto da apresentadora do sorteio da Libertadores com a mensagem mais objetiva do continente. “Kátia, descubra quem é essa mulher agora.” Fui ver. E lá estava Marina Granziera, brasileira, jornalista, 37 anos, ao lado de Juan José Buscalia, segurando com toda naturalidade um palco que muita gente acha que pertence por herança ao clube dos mesmos de sempre.

Marina nasceu em São Paulo, mas a vida dela já foi passear por El Salvador, Equador, Itália, Estados Unidos e Colômbia, por causa do trabalho do pai. Depois, se consolidou na imprensa esportiva colombiana e foi ocupando espaço até virar um nome reconhecido também como apresentadora. Traduzindo da biografia respeitável para a língua da fofoca fina, a moça não caiu de paraquedas no sorteio. Ela chegou ali porque já vinha carimbando milhas, repertório e cancha enquanto muito bonitão do esporte ainda acha que presença é sinônimo de gravata.

O detalhe que eu acho uma delícia é que Marina já tinha feito outros eventos da Conmebol, inclusive o sorteio das fases preliminares em dezembro. Ou seja, não foi teste, foi escalação. E isso muda tudo. Porque no esporte, sobretudo nesse universo engomado de cerimônia, tem sempre uma turma que age como se mulher no microfone ainda fosse novidade, favor ou enfeite. Aí aparece uma jornalista pronta, bilíngue de mundo, rodando há anos, e estraga a fantasia dos medíocres com eficiência profissional. Acho chique.
Tô conferindo o feed entre uma loja e outra na Via Montenapoleone e já consigo imaginar o movimento clássico. Brasileiro descobrindo agora quem a Colômbia já conhece, gente procurando foto, currículo, marido, emissora, país, querendo entender de onde saiu essa criatura. Como se talento feminino precisasse sempre vir com nota fiscal anexada. Minha leitura é simples. Marina rouba a cena justamente porque não parece estar pedindo licença para existir nela. E isso, meu bem, sempre causa um pequeno colapso nos inseguros de plantão.
No fim, adorei o enredo. Uma brasileira criada em trânsito, consolidada fora, ocupando lugar de visibilidade num evento continental e obrigando o público a atualizar a própria ignorância. Em Milão, eu respeito demais esse tipo de trajetória, porque tem gente que passa a vida tentando entrar no salão. E tem gente, como Marina Granziera, que já aparece no palco com o texto decorado e os outros que lutem.