Eu confesso que levei alguns segundos para processar o que ouvi. Porque uma coisa é comentário torto de rede social, outra bem diferente é um deputado usando a TV Assembleia para reescrever a história de Maria da Penha como se estivesse contando fofoca de corredor.
Durante a fala no canal institucional, Gustavo Vitorino afirmou que Maria da Penha nunca sofreu violência física do marido, que jamais levou um tapa e que sua condição física teria sido causada por um assalto, com um tiro na coluna. Tudo isso dito com a tranquilidade de quem acha que versão pessoal vale mais que fato comprovado.
Só que não vale. A história de Maria da Penha é documentada, julgada e reconhecida no Brasil e fora dele. Ela sofreu duas tentativas de homicídio cometidas pelo então marido. A primeira, um tiro enquanto dormia, que resultou em paraplegia. A segunda, uma tentativa de eletrocussão e afogamento. Isso não é interpretação, é registro judicial.
Transformar esse histórico em narrativa falsa não é erro inocente. É desinformação pesada, dita em canal público, por alguém que ocupa cargo eletivo e deveria saber o peso do microfone que segura. Quando um deputado espalha esse tipo de mentira, ele não só ataca uma mulher, ele tenta desmontar o sentido de uma lei que salva vidas.
Não é a primeira vez que a história de Maria da Penha vira alvo. Há anos, setores tentam relativizar a violência, distorcer fatos e enfraquecer a luta das mulheres com versões convenientes. O problema é que isso gera efeito real. Mais confusão, mais descrédito, mais espaço para violência ser normalizada.
O que me incomoda profundamente é o cenário. Não foi num podcast obscuro nem num vídeo de zap. Foi na TV Assembleia, com selo institucional, como se aquilo fosse informação confiável. Isso ultrapassa opinião e entra no território da irresponsabilidade pública.
A reação veio rápida. Especialistas, ativistas e usuários nas redes apontaram a falsidade das declarações e lembraram o óbvio. A Lei Maria da Penha existe porque o Estado falhou com ela durante anos. Negar isso é negar a própria história recente do país.