Eu, adoro quando vendem carreira como se tivesse nascido em camarim com luz perfeita. Com Marcos Veras não foi assim. A história real é suada, barulhenta e cheia de microfone aberto sem plateia educada.
Antes da Globo, antes do selo de queridinho e antes da figurinha repetida na dramaturgia, ele passou pelo rádio. E rádio não faz carinho. Ali o personagem se sustenta na voz, na respiração e no raciocínio rápido. Sem corte. Sem edição salvadora. Travou, caiu. Aguentou, cresceu.

Esse treino moldou o humor que depois o público reconheceu. Ritmo de fala, resposta imediata, improviso que parece espontâneo mas vem treinado no osso. Esse período quase nunca entra no perfil de celebridade, porque não rende foto bonita. Rende base.
Depois veio a fase que muita gente finge esquecer, e eu faço questão de puxar para o centro da sala. O Shoptime. Vender produto ao vivo pede sangue frio, jogo de cintura e capacidade de segurar atenção sem roteiro sofisticado. É câmera sem carinho, erro em tempo real e zero aplauso para esconder falha. Ali ele aprendeu a não perder a cena mesmo quando nada ajuda.

Essa passagem explica muito do profissional que apareceu depois. O ator que segura plateia. O apresentador que não se perde. O comediante que responde rápido e não desmonta diante do imprevisto. Isso não cai do céu. Vem de treino invisível e pouco valorizado.
Quando Marcos Veras chega à TV aberta, já chega pronto. O público vê o resultado final e ignora o laboratório. Rádio ensinou ritmo. Ao vivo ensinou resistência. O palco veio como consequência.