Eu juro que tentei manter a compostura, mas não deu. A exumação dos corpos dos Mamonas Assassinas virou aquele momento em que o país inteiro para, olha e pensa meu Deus do céu o que é isso. E no meio de tanta emoção, tanta memória e tanta lágrima represada, surge ela. A jaqueta do Dinho. Intacta. Impecável. Com cara de quem entrou ontem no caixão, como contou o primo Jorge Santana, CEO da marca Mamonas, ainda meio atordoado com a cena.
Aliás, se isso fosse roteiro de filme, o diretor pediria menos simbolismo porque estaria exagerado demais. Trinta anos enterrada e a jaqueta resolve atravessar o tempo como diva que se recusa a sair de cena. Eu já vi muito figurino voltar do fundo do baú, mas do fundo do túmulo é estreia absoluta até pra mim.
O momento foi descrito pela família como o mais impactante de toda a cerimônia. Não por morbidez, mas porque a peça estava em tão bom estado que não fazia sentido colocá-la junto aos restos mortais. A jaqueta praticamente pediu uma segunda carreira. Resultado, a família avalia deixá-la exposta, tratada, emoldurada, virando parte do memorial que está sendo criado no BioParque Cemitério, em Guarulhos.
E aí vem a parte que aperta o peito sem pedir licença. A exumação foi autorizada para que parte das cinzas seja usada no plantio de cinco árvores, exatamente no local onde a banda nasceu. As cinzas serão incorporadas às sementes, acompanhadas por especialistas, num gesto que mistura memória, natureza e continuidade. Sim, eu sei, parece texto bonito de exposição, mas dessa vez é vida real mesmo.
A história dos Mamonas sempre foi uma montanha russa emocional. Humor escrachado no palco, tragédia brutal na volta para casa em 1996, quando o jatinho colidiu com a Serra da Cantareira e levou todo mundo. O Brasil nunca superou direito. Só aprendeu a conviver com a ausência.
Agora, três décadas depois, uma jaqueta resolve reaparecer e lembrar que certas histórias não aceitam ponto final. Elas voltam. Às vezes em forma de música, às vezes em forma de árvore, às vezes vestidas de couro, fechando o zíper da memória e dizendo ainda estou aqui.