Eu confesso que sempre fico com um pé atrás quando alguém me diz “empresa familiar”. Normalmente vem junto drama, herdeiro despreparado e briga de almoço de domingo. Mas a Mami&Co resolveu fazer diferente e transformar convivência em plano de negócios.
Num Brasil em que quase 90% das empresas nascem dentro de casa, poucas sobrevivem ao teste da segunda geração com fôlego, método e competitividade. A Mami&Co não só atravessou esse portal como resolveu usar a família como ativo estratégico, coisa rara e perigosíssima, quando mal conduzida.
Fundada em 1991, em São Paulo, por Carlos Zein, a empresa começou fabricando bulbos de látex e cresceu junto com o próprio mercado infantil brasileiro. Produto recorrente, confiança do consumidor e presença nacional, aquela tríade que só parece simples no power point.

Com a morte do fundador, em 2020, muita gente apostou que viria turbulência. Spoiler, veio crescimento. A gestão passou para Nádia Zein e para Carol Zein, mãe e filha no comando, e o resultado foi um avanço de 25% entre 2020 e 2022, período em que muita empresa só pensava em sobreviver.
Aqui está o pulo do gato. Em vez de romantizar o discurso familiar, a companhia profissionalizou processos, acelerou a adaptação digital e preservou valores sem virar refém deles. Família virou cultura, não muleta. “Dar continuidade exige responsabilidade e respeito à história”, diz Nádia, naquele tom de quem sabe que legado não paga boleto se não tiver gestão.

O timing também ajudou. O mercado de puericultura vive um ciclo positivo, com o varejo infantil movimentando quase cinco bilhões de reais só no Dia das Crianças de 2025. Consumo recorrente, confiança e canal farmacêutico em expansão criaram um ambiente perfeito para quem sabe jogar o jogo.
E a Mami&Co soube. Apostou pesado nas farmácias, ampliou linhas e reforçou presença onde o consumidor busca orientação e não só preço. “A troca entre mãe e filha faz parte da nossa estratégia”, resume Carol, CEO e herdeira sem complexo.
No capítulo aquisições, a empresa incorporou a FlyColors no fim de 2022. A marca foi repaginada, cresceu 15% e já mira expansão de até 20%. Não é só compra, é integração com método. Produção própria onde importa, terceirização onde escala pede. Manual de crescimento bem escrito.

Em 2026, aos 35 anos, a Mami&Co lança o slogan “feita por mães que entendem”. Não é só frase bonita, é posicionamento. Num mercado saturado de promessas vazias, experiência real vira diferencial competitivo.
No fim das contas, a Mami&Co mostra que empresa familiar não precisa ser novela mexicana. Pode ser estratégia. Desde que todo mundo saiba quem manda, quem executa e quem não vive só de sobrenome.