A cobertura das eleições de 2026 abriu um mal-estar nos bastidores da Globo. Jornalistas da emissora levaram à direção queixas sobre críticas, ironias e postagens de artistas contratados ou recorrentes da casa contra a condução de entrevistas e a linha editorial do Jornal Nacional.
O caso que mais azedou o corredor, segundo a coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo, envolve Paulo Vieira. O humorista criticou César Tralli e Renata Vasconcellos depois da sabatina com Flávio Bolsonaro e questionou o tratamento dado a falas do candidato.
“Não perguntou sobre soberania nacional e tarifaço para Lula por qual motivo?”, escreveu Paulo.

Em outra publicação, ele afirmou que entrevistar uma pessoa que mente sem interrompê-la para apresentar contrapontos pode virar “desserviço”. A Globo foi procurada e não comentou o caso.
Eu ainda estava terminando a refeição na Tascantiga, em Sintra, quando soube dessa novela de bastidor. E vou dizer uma coisa: eleição chega, o estúdio vira panela de pressão e, de repente, até curtida em postagem passa a ser analisada como se fosse depoimento em CPI.
Sergio Guizé também entrou na lista de incômodos. O ator repostou uma imagem que questionava o critério do Jornal Nacional na cobertura de notícias relacionadas a Lula e Flávio Bolsonaro. A publicação sugeria tratamento diferente aos dois candidatos, mas a crítica circulou como opinião compartilhada pelo artista, não como informação comprovada.

Outros posts de Sophie Charlotte e José de Abreu, igualmente críticos à cobertura eleitoral, teriam sido encaminhados à direção. Entre jornalistas, a avaliação é que essas manifestações ajudam a ampliar um clima hostil contra a emissora e alimentam ataques nas redes sociais.
Eu deixei a conta sobre a mesa e pensei na encrenca: artista da Globo tem liberdade para dizer o que pensa sobre política, desde que não entre em propaganda oficial de candidato. Só que liberdade de opinião não impede que a opinião bata na porta de quem trabalha no jornalismo e deixe o ambiente com aquele silêncio de elevador depois de uma briga.
A Globo permite que nomes do entretenimento se posicionem publicamente, mas pode avaliar situações consideradas excessivas. Paulo Vieira não respondeu aos contatos da coluna, e a emissora também não se pronunciou sobre as queixas internas.
No fim das contas, minhas filhas, a eleição entrou na Globo pela tela, pelas redes e pelo corredor. E quando atores, humoristas e âncoras passam a discutir a mesma cobertura, não é só debate político: é climão de bastidor com luz de estúdio acesa.