Veneza hoje estava tão dramática quanto a política brasileira: água alta, vaporetto atrasado e o meu telefone vibrando com Lula dando entrevista ao Ceará com a desenvoltura de quem resolveu soltar o verbo numa quarta-feira qualquer. Parei o passeio, sentei na escada de uma ponte e ouvi tudo.
Em entrevista à TV Cidade do Ceará nesta quarta-feira (1°), o presidente Lula afirmou ter muito respeito por Ciro Gomes, e em seguida descreveu o ex-ministro como alguém que “fala pra pensar” e “arruma confusão onde não tem”. Lula disse que Ciro perdeu várias disputas presidenciais, acredita que ele, Lula, impediu suas vitórias, e que o problema central é que Ciro se enxerga como referência política individual, enquanto para Lula a referência deve ser o partido. Reconheceu que Ciro foi um bom ministro, que Camilo Santana chegou a levá-lo para uma conversa em São Paulo, e que ainda acredita que o cearense pode prestar bom serviço ao Brasil.
Nos feeds políticos, o trecho “fala pra pensar, não pensa pra falar” virou print em menos de vinte minutos. Bolsonaristas republicando com emoji de pipoca, petistas em silêncio constrangido, e pelo menos três perfis de análise política postando o áudio sem comentário, o que na linguagem das redes significa: isso falou sozinho.
O que a Kátia leu nessa entrevista toda: Lula não precisava falar de Ciro, mas escolheu falar, e isso tem peso. Com 2026 se aproximando e o campo da esquerda ainda tentando organizar o tabuleiro, uma declaração pública do presidente sobre temperamento e partido manda recado para várias frentes ao mesmo tempo, sem nomear nenhuma diretamente. Político experiente não solta “ele troca muito de partido” por acidente numa entrevista gravada.
Lula elogiou Ciro, criticou o temperamento, defendeu o partido e disse que não houve rompimento. Em outras palavras: falou tudo sem precisar de nada.