Eu estava numa clínica na Gávea, deitada, enfaixada, no meio de uma drenagem que eu classifico como agressão física consentida, quando o celular tocou em cima da maca e uma amiga empresária do ramo musical me deu a notícia antes mesmo de eu conseguir levantar o braço. Atendi torta. Ouvi tudo. E saí de lá com a perna zumbindo e a pauta pronta, porque o corpo até relaxa, o ouvido nunca.
Luísa Sonza sobe ao palco do Tomorrowland Bélgica nesta sexta-feira, 24, numa participação especial ao lado da dupla holandesa Kris Kross Amsterdam, que está entre os nomes mais rodados da eletrônica mundial. Ela foi convidada pelos próprios artistas e vai apresentar “My Oh My”, parceria lançada este ano em colaboração com Willy William. A apresentação acontece no The Great Library, um dos principais palcos do festival, às 17h no horário da Bélgica, o que dá meio-dia em Brasília. O Tomorrowland é considerado o maior festival de música eletrônica do mundo e recebe gente de mais de duzentos países, ou seja, é o tipo de vitrine que nenhuma assessoria consegue comprar, só conquistar.

E o detalhe que interessa está na palavra “convidada”. No circuito eletrônico, artista pop brasileira normalmente entra por contratação, por permuta de agência ou por aquele esforço diplomático que custa caro e rende foto. Entrar chamada pelo próprio ato que está no line-up é outra conversa, porque significa que existe uma música rodando e um público europeu que já reconhece o refrão. Willy William não é figurante, é o produtor francês que assinou um dos maiores hits latinos da década passada com J Balvin, e Kris Kross Amsterdam vive na dieta de streaming que sustenta as playlists holandesas e alemãs. Luísa não foi lá fazer participação simpática, foi cobrar o investimento de uma faixa que já estava trabalhando por ela.
Agora a leitura de estratégia, que é onde eu me divirto. Levar o Brutal Paraíso ao Coachella e emendar com o Tomorrowland desenha uma rota bem específica de expansão, e é uma rota que o pop brasileiro aprendeu a copiar depois que Anitta provou que dava certo: primeiro o festival de imprensa e prestígio, depois o festival de volume e streaming. Coachella entrega manchete, capa de site e aquele burburinho de moda que dura duas semanas. Tomorrowland entrega playlist, DJ tocando sua música em Ibiza no verão seguinte e nome circulando em mercado que não fala português. São movimentos complementares, e o fato de os dois acontecerem no mesmo ciclo mostra que tem plano por trás, não sorte. A única concessão à realidade é o horário. Dezessete horas na Bélgica é palco cheio, sol na cara e público em modo aquecimento, não é o slot da meia-noite onde se consagram lendas. Mas ninguém começa pela meia-noite, e quem já entendeu a lógica desses festivais sabe que participação bem executada às cinco da tarde é o que garante convite próprio no ano seguinte.
O que eu acho mais engraçado nessa história toda é a logística emocional do fã brasileiro, que vai ter que assistir a um dos maiores momentos internacionais da carreira dela às doze horas de uma sexta-feira, entre a reunião e o prato feito. Eu, que não tenho crachá para bater, vou acompanhar de casa com champanhe. Meio-dia em Bruxelas é fim de tarde, e em casa de jornalista é sempre fim de tarde em algum lugar.