Eu estava em casa, no Cosme Velho, com reunião marcada e três pastas abertas em cima da mesa, quando o telefone tocou e apareceu o nome de alguém da equipe do Luan Pereira. Larguei tudo. Reunião esperou, café esfriou, e a menina do outro lado da linha começou a despejar número de Spotify com uma empolgação que eu entendo perfeitamente, porque quem me conhece sabe que eu sou suspeitíssima para falar desse rapaz.
O recado veio quentinho: o projeto Off Road estreou na 153ª posição entre os 200 discos mais reproduzidos do Brasil no Spotify. E na segunda-feira (20), a faixa “Insegurança/Fim de Noite”, do projeto Resenha do Cabral, alcançou a 11ª colocação no Top 50 Brasil, o ranking que reúne as músicas mais ouvidas diariamente pelos brasileiros. Dois resultados diferentes, na mesma plataforma, na mesma semana.

O que me interessa aqui vai além do ranking. Off Road foi concebido como experiência fechada, unindo música, audiovisual e storytelling numa narrativa só, com faixas interligadas que transportam o ouvinte para um grande baile country brasileiro, cada canção funcionando como capítulo da história. Num mercado que hoje vive de single solto e playlist rotativa, apostar num disco que precisa ser ouvido do começo ao fim é teimosia comercial das boas. Entrar no Top 200 poucos dias depois do lançamento mostra que a teimosia pegou.
E o braço visual confirma a tese. O clipe de “Pedacin do Country”, música que conduz a narrativa do álbum, ultrapassou 5,2 milhões de visualizações nos primeiros dias. O público não só ouviu, foi ver. Quem trabalha com lançamento sabe que essa é a métrica que separa o hit de algoritmo do projeto que criou vínculo de verdade. O próprio Luan comemorou dizendo que trabalharam muito para que Off Road fosse uma experiência, um universo em que as pessoas pudessem entrar e acompanhar cada detalhe da história.
Ele se consolidou como um dos principais nomes da nova geração do sertanejo justamente por aproximar o gênero do country sem entregar a identidade brasileira na portaria, e isso é um equilíbrio muito mais difícil do que parece, porque chapéu americano vende rápido e cansa mais rápido ainda quando não tem lastro. Detalhe que me diverte: o número mais alto não saiu do álbum-conceito, saiu da faixa do Resenha do Cabral. É a vida do artista de projeto, você constrói a catedral inteira e o povo entra pela capela do lado. Desliguei, voltei para a reunião e informei a todos que o rapaz montou um universo narrativo completo enquanto eu não consigo montar uma agenda de quarta-feira.