Agora segura minha mão emocionalmente, porque eu, Kátia Flávia, vou falar de um livro que entrou na minha timeline literária como quem chega atrasado no velório e faz todo mundo chorar de novo. Entre Vidas não brinca em serviço. Ele pega uma tragédia real, documentada, dolorida e decide encarar o leitor sem anestesia.
O romance é assinado por Mario Salerno Junior, que eu já batizei de Autor do Capítulo Difícil, e parte do acidente ocorrido em 1960 no Rio Turvo, no interior de São Paulo. Um ônibus escolar que transportava jovens músicos de uma fanfarra caiu da ponte e matou 59 estudantes. Um fato que marcou uma cidade inteira e agora ganha nova forma dentro da literatura.
Na trama, acompanhamos Júnior, um adolescente de 17 anos que passa a ter sonhos intensos, lembranças estranhas e sensações que não se encaixam na própria história. Aos poucos, ele descobre que essas memórias pertencem a outra existência. Em uma vida anterior, Júnior foi Valdir, uma das vítimas do acidente no Rio Turvo. Sim, minha gente, o livro encara a reencarnação de frente e faz isso sem pedir licença.
A narrativa alterna passado e presente para mostrar quem foi Valdir antes da tragédia, sua família, seus vínculos afetivos, sua juventude no interior paulista, e quem é Júnior agora, lidando com o peso de reconhecer a própria morte em outra existência. O impacto psicológico dessa descoberta move o romance, que trabalha conflitos emocionais, identidade e propósito de forma direta, sem rodeios filosóficos demais.
A espiritualidade aparece como base conceitual da história, com inspiração nos ensinamentos de Allan Kardec e Chico Xavier, mas sem tom catequizador. O livro prefere provocar reflexão a dar resposta pronta, o que amplia o diálogo com leitores de diferentes crenças e até com quem lê tudo com a sobrancelha levantada.

Com capítulos curtos e escrita confessional, Entre Vidas aposta na emoção contínua e na leitura fluida. A sensação é de estar acompanhando uma novela espiritual compacta, daquelas que fazem o leitor pausar, respirar e seguir, mesmo desconfortável.
Publicado pela Ipê das Letras, o livro tem 71 páginas e está disponível em versão física e digital, com venda pela Amazon. O preço acessível ajuda a ampliar o alcance de uma história que dialoga com temas universais como perda, memória e continuidade da existência.
Como colunista que já viu drama de sobra em reality show e ainda assim se surpreende, eu digo. Entre Vidas escolhe um caminho delicado e não suaviza o impacto. É literatura que cutuca ferida, abre pergunta e deixa o leitor lidando com aquilo depois que a última página acaba.