Eu estava em Sintra, na minha residência em Beloura, acompanhando as notícias brasileiras pelo celular, quando apareceu Lito Sousa falando sobre aviação como nos velhos tempos. Parei. Olhei de novo. E havia um detalhe nada pequeno: o vídeo estava identificado como conteúdo feito com inteligência artificial.
A publicação apareceu no perfil de Lito nesta segunda-feira (28) e fala sobre o Domingo Aéreo 2026, evento realizado no Campo de Marte, em São Paulo. No vídeo, ele pergunta aos seguidores quem esteve no evento e qual teria sido o momento mais empolgante. A marcação de IA, porém, provocou confusão: parte do público ficou sem saber se assistia a um registro antigo ou a uma recriação digital.

E aqui a história deixa de ser apenas uma curiosidade tecnológica. Lito enfrenta a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), condição neurológica rara, e está submetido a um tratamento experimental. Segundo sua mulher, Mila Seidl, até a última sexta-feira (25) não havia melhora no quadro. Ela própria precisou desmentir informações de que o marido estaria se recuperando.
Lito recebeu no Brasil o medicamento experimental ALN-6457, que ainda estava em desenvolvimento clínico. De acordo com as informações divulgadas sobre o caso, ele foi o primeiro ser humano a receber a medicação. É justamente por isso que qualquer publicação em que sua imagem e sua voz apareçam hoje exige contexto redobrado. Não é uma brincadeira qualquer com IA.

Nos comentários da publicação, houve gente que entendeu o vídeo como uma maneira de recordar Lito e gente que se mostrou desconfortável ou simplesmente confusa. E esse talvez seja o ponto mais importante da história: inteligência artificial consegue reconstruir uma presença, mas não pode deixar o público sem saber claramente o que é registro real e o que é criação digital.
Aqui em Sintra, fechei o celular com uma certeza: tecnologia pode fazer muita coisa. Só não pode transformar dúvida em informação.