Eu vi e pensei. Carnaval começou oficialmente no momento em que Lindbergh Farias resolveu beijar Gleisi Hoffmann no meio do bloco, com celular apontado e legenda pronta. Não era só um selinho distraído de quem perdeu o glitter. Foi beijo com roteiro, ângulo calculado e frase para virar manchete antes do refrão acabar.
O casal apareceu no Embaixadores da Folia, no Rio, cercado de gente suada, sorriso aberto e clima de desfile improvisado. Lindbergh publicou o vídeo como quem solta fogos. Escreveu que era beijo com gosto de democracia, amor no Carnaval, Lula tetra e Brasil seguindo em frente. Tudo junto, misturado e sem pedir troco. Eu quase ouvi o marqueteiro batendo palmas no fundo do trio elétrico.
A cena virou comentário instantâneo porque não existe beijo inocente em ano eleitoral. Ainda mais quando envolve ministro, deputado e legenda política embalada por tamborim. Enquanto isso, nos bastidores do poder, teve gente engolindo confete atravessado. O ministro da Comunicação Social já tinha avisado que figurão do governo no Carnaval podia virar dor de cabeça jurídica. A orientação era camarote, descrição e distância da rua. Lindbergh escolheu o oposto. Rua, bloco, beijo e post.
O detalhe picante veio depois. No ano passado, o casal já tinha passado o Carnaval no Rio e cantado palavras de ordem contra Bolsonaro. Agora, repetem a dose com mais câmera, mais frase de efeito e menos cautela. Resultado. O Partido Novo correu ao TSE alegando propaganda antecipada. A política, que nunca perde uma chance de estragar a festa, entrou na avenida sem fantasia.
Eu chamo esse capítulo de romance institucional em modo folia. Gleisi virou musa de bloco improvisado, Lindbergh assumiu o papel de protagonista apaixonado e o Carnaval ganhou mais um enredo para comentar. Beijo filmado, legenda afiada e Brasília inteira fingindo que não viu, mas comentando em off. Porque no Brasil até o amor gosta de palanque, e o palanque adora um beijo bem enquadrado.