Eu estava no Cosme Velho, de legging, óculos enormes e suco de melancia na mão, tentando fingir que iria feliz para a academia, quando minhas amigas da APCA começaram a berrar no WhatsApp. Era áudio em cima de áudio, uma dizendo “Kátia, você não tem noção”, outra jurando que o clima no Teatro Sérgio Cardoso virou velório com buffet. E, meu amor, se tem atriz cult enlouquecida antes das oito da manhã, a coluna levanta até sem café.
A fala racista de Lima Duarte na cerimônia da APCA abriu uma segunda camada do babado. Ao contar que, aos 15 anos, recusou ir a uma zona de prostituição porque “só tinha preta”, o ator citou duas ruas reais de São Paulo: Aimorés e Itaboca, no Bom Retiro. Esses endereços abrigaram, entre 1940 e 1953, uma zona de meretrício criada pelo governo paulista.



A história é pesadíssima, daquelas que a cidade tenta varrer para debaixo do tapete enquanto inaugura shopping, café bonito e fachada restaurada. A prostituição foi concentrada ali por decisão do poder público, em nome de controle policial, sanitário e moral. Na prática, mulheres pobres, muitas delas migrantes e vulneráveis, foram empurradas para um espaço vigiado e tratado como depósito humano.
O local chegou a reunir cerca de 150 casas de prostituição e mais de mil mulheres. E ainda havia divisão social dentro da própria zona: a Itaboca era associada aos clientes com menos dinheiro, enquanto a Aimorés era frequentada pelos chamados remediados. Ou seja, até na exploração feminina São Paulo conseguiu botar tabela, endereço e hierarquia, porque a cafonice da elite nunca tira folga.
A zona acabou em 1953, também em clima de violência. Houve retirada forçada, protesto de mulheres, ação policial e até a morte de uma prostituta chamada Antônia, moradora da Aimorés, durante a confusão. Depois, a Rua Itaboca teve o nome trocado para Professor Cesare Lombroso, como se mudar a placa resolvesse a vergonha histórica, truque velho de cidade que passa corretivo em ferida aberta.
Por isso a frase de Lima Duarte pegou tão mal e continua rendendo. O comentário já era indefensável por si só, mas ainda arrastou para o palco uma história de racismo, pobreza, misoginia e apagamento urbano. Kátia aqui bebeu o suco, faltou na academia e concluiu: tem memória que, quando sai pela boca errada, derruba até homenagem de pé.