Estava num camarim aqui no Sul da Itália esperando minha produtora terminar o cabelo quando Lethicia me ligou contando o que tinha acontecido com uma empolgação que eu conheço bem, a de quem acabou de fazer exatamente o que queria fazer. Vinte anos de marca não se comemoram com coquetel e foto de grupo. Comemoram com desfile no JK Iguatemi com renda preta do pescoço ao tornozelo e convidadas que enchem qualquer fila A sem precisar de assessoria de imprensa.
Na quarta-feira, Lethicia abriu as celebrações de duas décadas com o desfile “Lace Affair Since 2006”, apresentando 17 looks onde a renda preta foi protagonista absoluta, aparecendo em vestidos, tops, corsets, saias, calças e sobreposições em tule. A proposta misturou alfaiataria estruturada com fluidez e transparência, gravata como elemento de poder em peças historicamente associadas ao feminino, corseteria no lugar certo, e silhuetas pensadas para uma mulher que ocupa espaço sem pedir licença. A trilha sonora reuniu Madonna, Lady Gaga, Beyoncé, Aretha Franklin, Anitta e Marina Lima, o que é basicamente um manifesto em formato de playlist.
O post do evento no Instagram da marca acumulou salvamentos em velocidade que só acontece com conteúdo que as pessoas querem revisitar, e as convidadas repostaram com aquela categoria de legenda de quem sabe que estar ali tem peso. Adriane Galisteu, Cátia Fonseca, Marisa Orth, Nat Mosca, Renata Kuerten e Thais Carla apareceram na fila A, e quando esse grupo está junto num mesmo evento a cobertura de moda vira cobertura de comportamento automaticamente.
Lethicia construiu vinte anos de carreira com um único material como assinatura, a renda, e em vez de diversificar para provar versatilidade, aprofundou. Esse é um movimento que pouquíssimas marcas brasileiras de luxo têm disciplina para fazer, porque o mercado sempre pressiona por novidade e ela respondeu com profundidade. A gravata entrando como subversão dentro de um universo de renda é o tipo de decisão de styling que parece simples na foto e é muito calculada na prancheta.
Vinte anos de renda, uma trilha com Aretha Franklin e Beyoncé, e Cátia Fonseca na fila A. Se isso não é declaração de território, eu não sei mais o que é.