Estava num hotel em Milão quando a notícia da morte de Lee Sang-bo chegou, e eu fiquei parada olhando pra tela porque acompanhei esse caso desde 2022 e sempre soube que ele não tinha acabado bem.
Em setembro daquele ano, uma denúncia anônima levou a polícia de Seul até um homem cambaleando nas ruas de Gangnam. Era Lee Sang-bo, ator com carreira consolidada em k-dramas como “Rugal” e “Miss Montecristo”. O teste rápido de urina acusou morfina, a polícia fotografou os comprimidos do apartamento dele como se fossem troféus, e a imprensa coreana recebeu tudo isso como presente de Natal. Em poucas horas, o nome dele estava associado para sempre à expressão “ator drogado”, e ninguém esperou o laudo completo para publicar.
O laudo completo, quando saiu, provou que ele não tinha droga ilícita nenhuma no organismo, só medicamentos controlados prescritos para depressão e transtorno de pânico que ele tratava desde a morte do pai, em 2009, quadro que piorou depois que perdeu a mãe e a irmã num acidente de carro. O inquérito foi encerrado sem indiciamento. A correção, no entanto, saiu discreta, enterrada, sem o destaque de uma linha sequer perto do tamanho da manchete original.
Nos algoritmos de busca, o nome de Lee Sang-bo continuou colado ao escândalo, porque é assim que funciona: a acusação indexa rápido e ranqueia alto, a absolvição some na segunda página. Em 2023 ele contou que chorou centenas de vezes lendo comentários que o chamavam de viciado, que passou a evitar sair de casa com medo de ser reconhecido como o protagonista de um caso policial, e que amigos e colegas foram sumindo na mesma proporção em que os contratos iam esfriando.
O que me parte aqui é a matemática cruel do estigma coreano com saúde mental: admitir tratamento psiquiátrico naquele mercado é quase confessar fraqueza moral, então quando os comprimidos de Lee viraram notícia, a narrativa de vício era mais palatável para o público do que a de depressão. Ele tentou voltar com “Elegant Empire” e uma nova agência, disse em entrevistas que queria apagar o rótulo com trabalho, e foi encontrado morto em casa em 2026, com as circunstâncias ainda sob investigação.
A denúncia anônima durou uma noite. A manchete durou quatro anos. Isso é o que precisa ser investigado