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Kátia Flávia
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Lee Sang-bo: acusação falsa de drogas destruiu carreira que não voltou mais 

Ator coreano foi preso em 2022 com teste positivo para morfina que depois se provou ser medicação psiquiátrica prescrita. A absolvição saiu nos autos, mas nunca saiu da internet. 

Kátia Flávia

27/03/2026 13h28

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O ator sul-coreano foi encontrado morto nesta quinta-feira, 26, aos 44 anos. (Foto: Reprodução/Internet)

Estava num hotel em Milão quando a notícia da morte de Lee Sang-bo chegou, e eu fiquei parada olhando pra tela porque acompanhei esse caso desde 2022 e sempre soube que ele não tinha acabado bem. 

Em setembro daquele ano, uma denúncia anônima levou a polícia de Seul até um homem cambaleando nas ruas de Gangnam. Era Lee Sang-bo, ator com carreira consolidada em k-dramas como “Rugal” e “Miss Montecristo”. O teste rápido de urina acusou morfina, a polícia fotografou os comprimidos do apartamento dele como se fossem troféus, e a imprensa coreana recebeu tudo isso como presente de Natal. Em poucas horas, o nome dele estava associado para sempre à expressão “ator drogado”, e ninguém esperou o laudo completo para publicar. 

O laudo completo, quando saiu, provou que ele não tinha droga ilícita nenhuma no organismo, só medicamentos controlados prescritos para depressão e transtorno de pânico que ele tratava desde a morte do pai, em 2009, quadro que piorou depois que perdeu a mãe e a irmã num acidente de carro. O inquérito foi encerrado sem indiciamento. A correção, no entanto, saiu discreta, enterrada, sem o destaque de uma linha sequer perto do tamanho da manchete original. 

Nos algoritmos de busca, o nome de Lee Sang-bo continuou colado ao escândalo, porque é assim que funciona: a acusação indexa rápido e ranqueia alto, a absolvição some na segunda página. Em 2023 ele contou que chorou centenas de vezes lendo comentários que o chamavam de viciado, que passou a evitar sair de casa com medo de ser reconhecido como o protagonista de um caso policial, e que amigos e colegas foram sumindo na mesma proporção em que os contratos iam esfriando. 

O que me parte aqui é a matemática cruel do estigma coreano com saúde mental: admitir tratamento psiquiátrico naquele mercado é quase confessar fraqueza moral, então quando os comprimidos de Lee viraram notícia, a narrativa de vício era mais palatável para o público do que a de depressão. Ele tentou voltar com “Elegant Empire” e uma nova agência, disse em entrevistas que queria apagar o rótulo com trabalho, e foi encontrado morto em casa em 2026, com as circunstâncias ainda sob investigação. 

A denúncia anônima durou uma noite. A manchete durou quatro anos. Isso é o que precisa ser investigado

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