Laura Cardoso morreu aos 98 anos, às 23h24 de segunda-feira (17), em sua casa, em São Paulo, de causas naturais. A forma como a atriz partiu trouxe de volta uma declaração dada há 12 anos, no programa Provocações, da TV Cultura, quando ela revelou como gostaria de morrer.
Eu já estava com a bolsa de treino no ombro, descendo as escadas do prédio no Cosme Velho para ir à academia, quando parei no meio do caminho com essa fala da Laura. Não era fofoca. Era quase um fechamento de cena. A atriz que atravessou a televisão brasileira inteira tinha dito, anos antes, que queria partir dormindo. E foi embora em casa, em paz, sem espetáculo.

Em 2014, durante entrevista a Antonio Abujamra no Provocações, Laura respondeu com humor quando perguntada sobre como gostaria de morrer. “Dormindo! Sabe aquela coisa, ‘ah, morreu dormindo’. É santo! De Deus”, disse. Quando o apresentador levantou a hipótese de ela ficar cercada por aparelhos, a reação foi imediata: “Ah, não!”.
A conversa voltou a repercutir porque a morte da atriz aconteceu justamente de forma natural, em casa. Segundo o bisneto Fernando Faria, Laura partiu às 23h24 de segunda-feira. O velório ocorre nesta terça-feira (18), das 8h às 14h, na Funeral Home, na Bela Vista, em São Paulo, em cerimônia reservada a familiares e amigos próximos. O público pode prestar homenagens na área externa.
Na mesma entrevista ao Provocações, Laura também falou sobre reencarnação e desejo de mundo. Disse que gostaria de voltar “num país onde tivesse justiça, igualdade e paz”. Questionada se queria mudar o mundo, respondeu sem rodeio: “Quero! Se eu pudesse…”.
E eu fiquei pensando nisso no elevador, com a garrafinha na mão e a academia parecendo um assunto menor diante da grandeza dela. Laura não falava da morte como derrota. Falava como quem entendia o fim sem perder o humor, a elegância e a vontade de melhorar o mundo. Pouca gente consegue fazer isso sem parecer frase de efeito.
Essa serenidade também apareceu em 2019, quando ela disse à Quem que não tinha medo da morte. “É uma besteira ter medo da morte! Ela é imprevisível, mas inevitável. A gente não sabe quando ela vem, mas que ela é certa para todo mundo, ela é”, afirmou na época. Laura dizia amar a vida e agradecer por ter chegado à idade que chegou, mas reconhecia: “A gente um dia vai embora”.

Laura foi embora depois de mais de 80 anos de carreira, mais de 100 trabalhos e uma presença que virou parte da memória afetiva do país. Começou no rádio ainda adolescente, estreou na TV Tupi em 1952, passou por novelas como Mulheres de Areia, A Viagem, Caminho das Índias, Chocolate com Pimenta e A Dona do Pedaço, e tinha contrato vitalício com a TV Globo.
Eu saí para a rua, olhei o sol de terça batendo no Cosme Velho e pensei que Laura encerrou a própria história como quem conhecia o texto final. Não escolheu a hora, porque ninguém escolhe. Mas, de algum jeito, acertou o tom. Dormindo, em casa, sem aparelhos. Do jeito que ela mesma chamou de santo.