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Kátia Flávia
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Laura Cardoso escolheu como queria morrer há 12 anos e teve o desejo atendido: “É santo”

Atriz, que morreu aos 98 anos em casa e de causas naturais, já havia dito no Provocações que queria partir dormindo, longe de aparelhos, e falava da morte com uma serenidade rara

Kátia Flávia

18/08/2026 9h03

Laura Cardoso morreu aos 98 anos, em casa, de causas naturais

Laura Cardoso morreu aos 98 anos, em casa, de causas naturais

Laura Cardoso morreu aos 98 anos, às 23h24 de segunda-feira (17), em sua casa, em São Paulo, de causas naturais. A forma como a atriz partiu trouxe de volta uma declaração dada há 12 anos, no programa Provocações, da TV Cultura, quando ela revelou como gostaria de morrer.

Eu já estava com a bolsa de treino no ombro, descendo as escadas do prédio no Cosme Velho para ir à academia, quando parei no meio do caminho com essa fala da Laura. Não era fofoca. Era quase um fechamento de cena. A atriz que atravessou a televisão brasileira inteira tinha dito, anos antes, que queria partir dormindo. E foi embora em casa, em paz, sem espetáculo.

Em 2014, durante entrevista a Antonio Abujamra no Provocações, Laura respondeu com humor quando perguntada sobre como gostaria de morrer. “Dormindo! Sabe aquela coisa, ‘ah, morreu dormindo’. É santo! De Deus”, disse. Quando o apresentador levantou a hipótese de ela ficar cercada por aparelhos, a reação foi imediata: “Ah, não!”.

A conversa voltou a repercutir porque a morte da atriz aconteceu justamente de forma natural, em casa. Segundo o bisneto Fernando Faria, Laura partiu às 23h24 de segunda-feira. O velório ocorre nesta terça-feira (18), das 8h às 14h, na Funeral Home, na Bela Vista, em São Paulo, em cerimônia reservada a familiares e amigos próximos. O público pode prestar homenagens na área externa.

Na mesma entrevista ao Provocações, Laura também falou sobre reencarnação e desejo de mundo. Disse que gostaria de voltar “num país onde tivesse justiça, igualdade e paz”. Questionada se queria mudar o mundo, respondeu sem rodeio: “Quero! Se eu pudesse…”.

E eu fiquei pensando nisso no elevador, com a garrafinha na mão e a academia parecendo um assunto menor diante da grandeza dela. Laura não falava da morte como derrota. Falava como quem entendia o fim sem perder o humor, a elegância e a vontade de melhorar o mundo. Pouca gente consegue fazer isso sem parecer frase de efeito.

Essa serenidade também apareceu em 2019, quando ela disse à Quem que não tinha medo da morte. “É uma besteira ter medo da morte! Ela é imprevisível, mas inevitável. A gente não sabe quando ela vem, mas que ela é certa para todo mundo, ela é”, afirmou na época. Laura dizia amar a vida e agradecer por ter chegado à idade que chegou, mas reconhecia: “A gente um dia vai embora”.

Laura foi embora depois de mais de 80 anos de carreira, mais de 100 trabalhos e uma presença que virou parte da memória afetiva do país. Começou no rádio ainda adolescente, estreou na TV Tupi em 1952, passou por novelas como Mulheres de Areia, A Viagem, Caminho das Índias, Chocolate com Pimenta e A Dona do Pedaço, e tinha contrato vitalício com a TV Globo.

Eu saí para a rua, olhei o sol de terça batendo no Cosme Velho e pensei que Laura encerrou a própria história como quem conhecia o texto final. Não escolheu a hora, porque ninguém escolhe. Mas, de algum jeito, acertou o tom. Dormindo, em casa, sem aparelhos. Do jeito que ela mesma chamou de santo.

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