Manas, Hollywood ainda estava batendo palma e Kleber Mendonça Filho já tinha decidido que aquele microfone não ia servir só para agradecimento protocolar. O diretor subiu da estatueta direto para a coletiva e resolveu fazer o que sabe. Falar de memória, de passado mal resolvido e de política sem pedir licença para o tapete vermelho.
O estopim foi a vitória de O Agente Secreto como melhor filme em língua não inglesa no Globo de Ouro. Até aí, festa. A virada veio quando Kleber, sem mudar o tom e falando em inglês, citou o cenário político recente do Brasil e soltou a frase que atravessou o oceano. Disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro está preso e classificou sua atuação como irresponsável em escala épica.

O clima azedou para quem esperava apenas discurso elegante de cinema autoral. Kleber puxou o assunto para o lugar que interessa ao filme. Memória, luto coletivo, passado que insiste em voltar e a função do cinema como linguagem para dar forma ao que a sociedade vive. Nada de frase ensaiada. Nada de neutralidade educada.
Na mesma fala, ele se dirigiu aos jovens cineastas americanos, lembrando que tecnologia existe de sobra para se expressar e que o momento pede posicionamento. A mensagem foi clara. Cinema não vive numa redoma. Cinema reage ao mundo. E O Agente Secreto nasceu exatamente desse atrito com a história brasileira.
A reação foi imediata. A vitória do filme deixou de ser apenas artística e ganhou contorno político internacional. Enquanto no Brasil o debate sobre memória ainda engasga, lá fora o diretor brasileiro usou a maior vitrine do cinema para ligar passado, presente e responsabilidade pública numa tacada só.
Kleber não transformou a coletiva em palanque. Ele simplesmente se recusou a separar a obra do contexto. O resultado foi uma manchete que correu o mundo e reforçou o que o filme já diz na tela. A história não desaparece porque alguém prefere esquecer. E, pelo visto, nem Hollywood passou ilesa dessa lembrança.