Amorecos , escrevo isso com glitter na sobrancelha e o coração batendo no ritmo de TiK ToK, porque fui batizada na tal igreja e aceito o dízimo em refrão berrado. A volta de Kesha ao Brasil aconteceu como novela que promete reencontro e entrega drama, lágrima e beijo na mão da protagonista.
Horas antes do show, o clima já estava de romaria pop. Kesha desembarca em São Paulo com camiseta provocativa, olhos desenhados nas mãos e pose de líder espiritual do glitter. Fãs no aeroporto recebem beijo, selfie, aceno e aquela sensação de proximidade que vira história pra contar por anos. Vídeos correm nas redes e inflam o sentimento de noite histórica. Bastidor quente, expectativa lá em cima, CarnaUOL preparado pra receber a sacerdotisa.

No Allianz Parque, o cenário ajuda o drama. Chuva fina, estádio cheio, inglês cantado com sotaque de adolescência. Kesha entra no horário de headliner e abre sem piedade. TiK ToK surge cedo, depois vem Blow, Crazy Kids, Timber e a sequência que transforma gramado em pista de festa atrasada por uma década. A iluminação colorida encontra a água caindo e o público responde com coro que parece ensaio geral de festival antigo, só que com maturidade emocional.
Arquibancadas e pista viram templo improvisado. Glitter no rosto, olhos nas mãos, cartazes com letras antigas, gente chorando sem pedir desculpa. Vídeos mostram fãs soluçando em TiK ToK e Only Love Can Save Us Now, legendas falam de adolescência condensada em uma hora. A brincadeira da igreja vira oficial. Missa de glitter, templo pop, absolvição coletiva por uma espera longa.
Kesha brinca com a ideia de estar num festival de Carnaval, dança como quem lidera trio elétrico indoor e se diverte com a mistura. O público entrega fantasia, purpurina, bandeiras e uma energia que junta bloco e festival. O CarnaUOL sai fortalecido como ponto de encontro dessa mistura e Kesha devolve ao fã brasileiro um show que mora na memória afetiva, agora com chuva, aplauso e riso solto.
Eu saio dessa noite convertida, molhada, rouca e satisfeita. A igreja do glitter abriu as portas, a sacerdotisa voltou e São Paulo respondeu com fé pop do jeito que só quem esperou onze anos entende.