O Rio de Janeiro amanheceu com aquele céu de pano de prato encardido, e eu, atrasadíssima, no banco de trás do carro rezando para o sinal da Avenida Delfim Moreira abrir antes que a minha aula do Leblon virasse alongamento solitário. Foi quando o telefone tocou. Uma fonte que frequenta os corredores certos me contou, quase de passagem, que a Karol Conká tinha passado a noite anterior numa sala de reunião no Rio ajudando a desenhar a premiação mais tradicional da música brasileira. Cheguei na academia sem fôlego e sem vontade nenhuma de fazer abdominal.
O encontro foi dedicado à construção da próxima edição do prêmio, com a presença de Zé Maurício Machline, idealizador da premiação. Karol Conká integra o grupo de conselheiros e esteve ao lado de Criolo, Emicida, Arnaldo Antunes e Ney Matogrosso. Não foi visita de cortesia nem foto de convidada ilustre: ela senta lá com direito a voz e a voto.

E vale explicar o que se decide numa sala dessas, porque muita gente acha que conselho de prêmio serve para tomar café e posar em foto. Os conselheiros se reúnem periodicamente ao longo do ano para discutir a curadoria dos artistas indicados, os critérios que norteiam a seleção e a definição do conceito e do tema de cada edição. O Conselho Diretor também responde pela escolha dos jurados, pelo voto de minerva em caso de empate e pela indicação do homenageado do ano. Em bom português: essa gente ajuda a decidir quem sobe no palco, quem é lembrado e quem fica em casa vendo pelo YouTube.
A 33ª edição aconteceu em 10 de junho, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com Cazuza como homenageado, apresentação de Débora Bloch e Alice Wegmann, direção musical de Pretinho da Serrinha e João Gomes e Luedji Luna como grandes destaques da noite. Ou seja, a poeira das taças mal assentou e o conselho já está costurando a próxima. Aqui mora a leitura que interessa: em cinco anos, Karol Conká saiu do posto de pessoa mais rejeitada da história do reality show brasileiro para o de conselheira de um prêmio que existe desde 1988 e que se orgulha de avaliar por qualidade artística, não por número de streaming. Reconstrução de imagem de verdade não se faz com nota de esclarecimento nem com vídeo chorando na vertical, se faz assim, entrando devagarinho por uma porta onde a régua é o trabalho e ficando tempo suficiente para que ninguém se lembre de perguntar como você chegou ali.

Quer dizer, o país inteiro passou meses debatendo se Karol Conká merecia ou não uma segunda chance, e ela, sem pedir licença a ninguém, foi sentar na mesa que distribui as chances dos outros. Que ninguém a chame para julgar meu desempenho na esteira hoje.