Sexta-feira nublada dessas que o Cosme Velho faz questão de exibir, eu batendo um suco de pera na cozinha e adiando a academia do Leblon com a desculpa esfarrapada de que o tempo não ajuda. O telefone tocou. Uma amiga advogada, dessas que conhecem cada corredor do fórum pelo cheiro, quis saber se eu já tinha lido a decisão sobre o testamento do Dennis Carvalho. Larguei o copo na pia. A pera que esperasse.
A juíza Vera Maria Andrade Lage determinou o registro, a abertura e o cumprimento do testamento público deixado pelo diretor, morto em 28 de fevereiro deste ano, aos 78 anos. Nesta fase, o Judiciário só confere se o documento cumpre as formalidades da lei, e cumpre. Fica confirmada como testamenteira a atriz Deborah Evelyn, ex-mulher com quem ele viveu 24 anos e de quem se separou em 2012. Qualquer discussão sobre as cláusulas, caso os herdeiros queiram levantar alguma, foi empurrada para o inventário, que corre na mesma vara.

E as cláusulas merecem leitura atenta. Dennis fixou uma vintena de R$ 5 mil para Deborah, corrigida monetariamente, e a dispensou de prestar caução ou fiança, o que em português claro significa confiança sem exigir garantia. Recomendou que a administração do patrimônio ficasse com uma empresa, salvo se os próprios herdeiros decidirem diferente. Reconheceu como herdeiros necessários os três filhos, Leonardo Torloni, Tainah Alves de Carvalho e Luiza Evelyn, e destinou a eles também a parte disponível. Nenhuma das outras ex-mulheres aparece no documento.
O detalhe que fez minha amiga baixar o tom no telefone é a cláusula de impenhorabilidade e incomunicabilidade vitalícia, extensiva aos frutos. Traduzindo para a mesa do restaurante: quem casar com um filho do Dennis não encosta o dedo em nada, nem no patrimônio nem no que ele render. O homem dirigiu novela por décadas e sabia exatamente como termina esse tipo de capítulo. Em abril, os três filhos assinaram escritura pública concordando que Deborah também assuma como inventariante. Seis casamentos, três mães diferentes envolvidas, e a partilha começa com todo mundo assinando o mesmo papel. Isso, no Brasil das heranças de artista, é quase folclore.

Deborah, enquanto isso, segue no ar como Carmita em Quem Ama Cuida, administrando drama alheio das oito e espólio milionário na mesma semana. Aqui na região só se fala nisso desde ontem, e a conclusão do salão foi unânime: Dennis escolheu a única pessoa da lista que já tinha sido testada em 24 anos de convivência e continuava atendendo o telefone. Ele não deixou uma herança. Deixou um roteiro, com marcação de cena e tudo.