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Kátia Flávia
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Juliana Romão investiga como a linguagem ainda afasta mulheres da política

Em nova obra, jornalista e pesquisadora discute os obstáculos enfrentados por mulheres nos espaços de poder e propõe repensar a construção da fala pública no Brasil

Kátia Flávia

12/08/2026 17h00

A jornalista e pesquisadora Juliana Romão lança livro que discute como linguagem, poder e desigualdade atravessam a participação feminina na política.

A jornalista e pesquisadora Juliana Romão lança livro que discute como linguagem, poder e desigualdade atravessam a participação feminina na política.

Quase três décadas depois da criação da política de cotas para candidaturas femininas, a presença das mulheres na política brasileira continua distante de refletir o tamanho que elas ocupam na sociedade. Elas representam cerca de 18% da Câmara dos Deputados, índice que coloca o Brasil entre os países com menor participação feminina no Parlamento entre as principais economias do mundo.

É a partir dessa contradição que a jornalista e pesquisadora Juliana Romão desenvolve A Linguagem das Mulheres Políticas: desmecanizar o pensamento é emancipar a fala pública, publicado pela Editora Appris. O livro terá sessão de autógrafos no dia 18 de agosto, na Platô Livraria, em Brasília.

Mestre em comunicação pela Universidade de Brasília, a UnB, e assessora especial no Ministério da Igualdade Racial, Juliana desloca a discussão da representatividade para um território menos evidente: a linguagem. Sua tese é que parte das dificuldades enfrentadas pelas mulheres para ocupar e permanecer nos espaços de decisão também está na maneira como o discurso político foi historicamente construído.

O livro nasceu de anos de oficinas de fala pública realizadas com candidatas, mulheres eleitas, ativistas e lideranças políticas. Nessas experiências, Juliana percebeu que o medo da exposição, a insegurança e a sensação de inadequação apareciam com frequência, mesmo entre mulheres preparadas para exercer posições de liderança.

“A grande insegurança ante a exposição da fala pública, que muitas vezes pode ser paralisante, não é maior do que a vontade de avançar individual e coletivamente nas agendas, acessos e no legado que estamos construindo”, afirma a autora.

A questão, segundo Juliana, não pode ser analisada apenas sob a perspectiva de gênero. Raça, classe e território também interferem em quem consegue falar, quem é ouvido e, principalmente, a quem se atribui credibilidade. Mulheres negras, indígenas, periféricas, trans e com deficiência enfrentam camadas adicionais de resistência nos espaços de poder.

Dividida em três eixos, conceitos, práticas e provocações, a obra se distancia da proposta tradicional dos manuais de oratória. Em vez de ensinar apenas como falar melhor, Juliana propõe questionar os padrões que determinam o que é considerado uma fala adequada, segura ou legítima.

É daí que surge uma das ideias centrais do livro, “desmecanizar o pensamento”. Para a pesquisadora, antes de aperfeiçoar técnicas de comunicação, é necessário identificar comportamentos e padrões que foram naturalizados ao longo do tempo.

A autora também volta o olhar para a própria legislação eleitoral. Um dos exemplos abordados é a evolução das cotas femininas. Segundo Juliana, durante anos a legislação determinava apenas que os partidos deveriam “reservar” vagas para mulheres, sem exigir efetivamente seu preenchimento. A mudança de uma palavra ajudou a expor um problema muito maior.

Apesar das barreiras, Juliana identifica avanços. Mulheres conquistaram maior presença institucional, ampliaram sua influência em movimentos sociais e passaram a disputar de forma mais contundente espaços antes quase exclusivamente masculinos. O ritmo, porém, ainda está longe do necessário.

Para a autora, ampliar a representação feminina depende de legislação, fiscalização e organização política, mas também de algo menos mensurável: fazer com que mulheres não precisem adaptar permanentemente sua voz a um ambiente que, durante muito tempo, foi desenhado sem elas.

“As mulheres estão ocupando mais espaços, impulsionando direitos e mudanças na cultura, mas o cenário ainda é de muita desigualdade, então precisamos acelerar esse movimento”, conclui Juliana.

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