Eu estava tomando café, checando fofoca atrasada e fingindo que não penso em Carnaval em janeiro, quando a bomba caiu no meu colo. **Juliana Baroni vai reviver Marisa Letícia no desfile da Acadêmicos de Niterói. Pronto. A Sapucaí ganhou roteiro, close e memória afetiva.
A escola estreia no Grupo Especial com um enredo que já chega chegando. “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o filho do Brasil” não pede licença, entra e senta na sala. Juliana reaparece na avenida no dia 15 de fevereiro, ocupando um ponto nobre do desfile. Eu chamo de posição de impacto. Impacto mesmo, daquele que arrepia braço e muda o tom da transmissão.

Não é estreia de personagem. É retorno de pele, gesto e olhar. Em 2009, Juliana viveu Marisa no filme Lula, o Filho do Brasil. Agora, a atriz revisita a mesma figura em outro palco, com outro peso, diante de um público que reage em tempo real. Cinema vira avenida. Avenida vira lembrança coletiva.
Conversei com o meu lado dramático e ele aprovou. A atriz estudou a trajetória, se comoveu com passagens duras, assumiu o compromisso de emocionar. Não tem efeito fácil aqui. Tem responsabilidade cênica, tem entrega, tem aquela sensação de que o desfile vai ganhar silêncio atento no meio do barulho.

Eu já consigo imaginar o enquadramento da câmera, o comentarista pigarreando e a arquibancada entendendo que aquilo ali não é só fantasia. Carnaval também sabe contar história sem gritar. E quando grita, grita com motivo.
A Acadêmicos de Niterói abre os desfiles do Grupo Especial. Abrir é coragem. Abrir com Juliana Baroni como Marisa Letícia é decisão de quem quer marcar território. Eu vou assistir com olho de novela e coração de arquibancada. Porque quando a arte resolve conversar com a memória do país, a avenida vira protagonista.