Saí da aula, fui encher a garrafinha e encontrei uma rodinha de meninas parada no meio do corredor, celular na horizontal, discutindo com uma seriedade de conselho de administração. Achei que fosse separação de casal famoso, corri para ouvir. Era campanha de perfume. Uma delas dizia que ia comprar hoje mesmo, a outra jurava que já tinha o frasco em casa e agora ia usar com outro sentimento. Fiquei parada ali fingindo alongar a panturrilha, porque informação a gente colhe onde ela cai.
O anúncio saiu de São Paulo: a O.U.i Paris escolheu Jota.pê como novo embaixador de Iconique 001, a fragrância masculina mais vendida da marca. Carolina Carrasco, diretora de comunicação de O Boticário, Quem Disse, Berenice? e O.U.i Paris, afirmou que encontraram no artista alguém que traduz autenticidade e sofisticação, valores que a casa associa à linha. Ele, por sua vez, contou que cada detalhe do ritual antes de um show tem significado para ele e que a fragrância entra nesse momento de preparação, comparando a assinatura olfativa à capacidade que uma música tem de marcar uma fase da vida. Bonito, e ainda por cima coerente com a peça que vem por aí.

A campanha vai justamente por esse caminho. A comunicação será amplificada com conteúdos que mostram a relação do artista com o perfume, a rotina que antecede as apresentações e a costura entre música, estilo e alta perfumaria, tudo apoiado na mensagem da linha sobre a assinatura de quem sabe viver. Para quem não acompanha o setor, vale saber o que está sendo vendido junto com o nome: a O.U.i, abreviação de “Original. Unique. Individuel”, é uma marca criada na França, com atelier em Paris, desenvolvida pelo Grupo Boticário sob direção olfativa do premiado Pierre Aulas, com fórmulas veganas e cruelty-free enriquecidas com o L’Essence de Grasse.
E agora a parte que me diverte. Um grupo brasileiro constrói uma marca com sotaque francês, atelier em Paris, discurso de savoir-vivre, e escolhe para representá-la um rapaz de Osasco que cantou em barzinho vazio, passou pelo The Voice, quase desistiu por falta de dinheiro e, em 2024, voltou de Miami com três Grammys Latinos, incluindo o de melhor canção em língua portuguesa por Ouro Marrom. A escolha diz tudo sobre onde o mercado de luxo brasileiro está mirando. Vender elegância importada já não convence ninguém sozinho, então a marca vai buscar credibilidade em quem construiu estética própria do zero, chapéu incluso, usado desde a sétima série por sugestão da mãe dele. É perfume francês pedindo aval de MPB, e funciona.

Restou uma dúvida na fila do bebedouro que ninguém soube responder: se a assinatura olfativa cria memória, como ele mesmo disse, o que acontece quando meio Brasil resolver usar a mesma. Vamos todos lembrar da mesma coisa ao mesmo tempo, imagino.