Eu estava, mexendo no celular com a seriedade de quem investiga a vida cultural do país e não apenas flerta com a fofoca de qualidade, quando me chega uma informação que eu recebi com gosto. “A Nobreza do Amor” vai abrir ao som de “Zumbi”, de Jorge Ben Jor, e isso já muda a temperatura da sala. Porque abertura de novela, no Brasil, meu amor, não é detalhe técnico. É cerimônia de apresentação, joia de família, cartão de visitas e, em muitos casos, a primeira pista de como a emissora quer ser lida.
Aqui, a aposta veio com um pacote visual inteiro construído em animação e mergulhado em referências negras, valorizando raízes culturais que aproximam Brasil e África. Eu gosto quando a abertura resolve pensar. E aqui pensou. Pensou com símbolo, com textura, com imaginação e com uma certa ambição estética que foge da preguiça visual que às vezes ronda essas peças.
A criação parte de uma noção de tempo cíclico, central em muitas culturas de matriz africana. Isso organiza o próprio percurso da vinheta. A imagem do reino de Batanga abre e fecha o vídeo, criando esse movimento circular que simboliza realeza, destino e retorno. Eu acho chiquérrimo quando a televisão aberta resolve colocar conceito sem pedir desculpas, porque o público entende mais do que muito executivo imagina. Basta não tratar ninguém como figurante da própria inteligência.
O universo visual da abertura foi montado a partir de uma mistura de tecidos africanos, arte popular brasileira, símbolos adinkra e referências à força moral de Xangô, além do tecido Kente, ligado às realezas Ashanti, em Gana. Ou seja, não foi um passeio decorativo por uma estética exótica de vitrine. Existe uma intenção clara de trabalhar poder, linhagem, memória e ancestralidade dentro da narrativa visual. Aí, meus amores, a coisa sobe de categoria.
A própria estrutura acompanha temas centrais da novela, como ancestralidade, travessia e aliança entre dois mundos. A câmera atravessa padronagens até chegar a mandalas e adinkras e, desse percurso simbólico, emerge a realidade. É nesse giro que aparecem Jendal, vivido por Lázaro Ramos, observando Tonho, personagem de Ronald Sotto, e depois Alika, interpretada por Duda Santos, em um momento de reconexão. O encontro do casal simboliza justamente essa união dos dois universos. Eu li isso e pensei, com meu cinismo afetivo habitual, que a Globo resolveu colocar afeto, geografia e destino para dançar no mesmo salão.
E claro que nada disso funcionaria da mesma forma sem a música. “Zumbi”, lançada por Jorge Ben Jor em 1974, no álbum “A Tábua de Esmeralda”, entra como bússola e como manifesto emocional da abertura. Não é uma canção escolhida para preencher espaço. É um clássico carregado de peso histórico, identidade e pulsação. E usar Jorge Ben Jor aqui tem um efeito poderoso. A novela já entra em cena dizendo que quer dialogar com raízes, com memória e com um Brasil que nem sempre é tratado com a grandeza que merece.
O projeto criativo foi liderado por Will Nunes e supervisionado por Chris Calvet, com uma equipe que, segundo a própria criação, trouxe pluralidade ao processo. Isso importa. Porque certas imagens só ganham densidade quando vêm de um olhar que conhece por dentro a matéria simbólica com que está trabalhando. Há diferença, sim, entre usar referência e construir linguagem.
Eu confesso que comecei a acompanhar essa história com curiosidade estética e terminei com aquela animação de quem sente cheiro de abertura memorável. Porque abertura boa tem esse poder raro. Ela antecipa trama, fixa atmosfera, vende sonho e, às vezes, entrega uma tese em menos de um minuto. É quase um desfile de escola de samba comprimido em vinheta, com menos pluma e mais semiótica.
Também gostei de saber que os criadores espalharam pequenos segredos visuais ao longo das cenas, detalhes que o público vai compreendendo e ampliando com o tempo. Adoro isso. A televisão fica mais viva quando trata a audiência como cúmplice e não como plateia passiva. Dá para imaginar o povo pausando vídeo, trocando teoria, mandando print no grupo e transformando a abertura em assunto paralelo à novela. E com razão.
“A Nobreza do Amor”, criada por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Júnior, já chega cercada por esse esforço de amarrar narrativa, identidade visual e repertório cultural numa mesma moldura. E eu vou te dizer uma coisa, meu povo. Quando uma novela estreia com Jorge Ben Jor no comando da porta de entrada, com África no centro da imagem e com uma abertura que quer ser lida, decifrada e sentida, ela já entra na festa sem passar despercebida.
Eu, que sou uma mulher facilmente comovida por uma boa abertura de novela e por qualquer gesto estético que respeite inteligência e memória, fiquei curiosíssima para ver esse material no ar. Porque tem abertura que só apresenta elenco. E tem abertura que chega com cara de destino.