Eu estava aqui, num humor de quem só queria paz e um cafezinho decente, quando o João Rock resolveu despejar 27 atrações de uma vez na mesa do Brasil. É muita banda, muito nome, muita nostalgia, muito suor imaginário de pista e aquele velho conhecido da classe artística, o gatilho do cartão de crédito. Festival grande adora fazer isso com a gente, entrega emoção e cobrança no mesmo clique.

A edição de 2026 acontece em 1º de agosto, em Ribeirão Preto, com cinco palcos e um line-up que mistura medalhão, veterano querido e nome quente da cena. Entraram na lista BaianaSystem, Alceu Valença, Ana Carolina, Raimundos, FBC, Nação Zumbi, Lagum, Djonga, CPM 22, Detonautas, Os Paralamas do Sucesso, Samuel Rosa, além dos shows especiais de Marcelo D2 com Rael e “Charlie Brown Jr. Acústico”, com Negra Li e Marcão Britto. E ainda tem os estreantes, como Rachel Reis, Yago Oproprio, Ajuliacosta, Chico Chico, Urias, Luedji Luna, Tucumanus e Victor Xamã. Ou seja, o João Rock fez o que festival ama fazer quando quer parecer democrático, juntou memória afetiva com presente barulhento e vendeu isso como experiência.

No bastidor digital, o anúncio já nasce com manual de comportamento pronto. Fã corre para marcar amigo nos comentários, reclamar de ausência ilustre, dizer que o line-up do ano passado era melhor e, cinco minutos depois, perguntar onde compra ingresso. É sempre assim. O brasileiro transforma qualquer divulgação de festival numa assembleia dramática de condomínio pop, com gente surtando por Criolo, gente reencarnando 2004 por causa de CPM 22 e uma ala inteira fazendo conta para parcelar a emoção em seis vezes.

O que eu acho delicioso nesse tipo de anúncio é a engenharia sentimental. O João Rock entendeu faz tempo que público de festival não compra só show, compra identidade temporária. A pessoa quer se sentir parte de uma tribo muito específica, aquela que dança BaianaSystem, grita Paralamas, posa de cool com Djonga e ainda se permite um colapso elegante ao ouvir Alceu Valença. É quase um grande encontro entre a juventude de hoje e a adolescência que vários adultos juram que superaram, mas basta aparecer Raimundos no cartaz para todo mundo perder a compostura com dignidade duvidosa.

E claro, a cereja do caos organizado vem junto com os ingressos. Preço a partir de R$ 230 na meia já coloca o público naquele clássico estado nacional de animação com leve taquicardia. O festival avisa para comprar só em canal oficial, porque até golpe entra no line-up brasileiro hoje em dia. No fim, Ribeirão Preto vira capital da catarse e o povo faz o que sempre faz diante de um cartaz desses, reclama, compara, compartilha e compra. Porque sofrer por música ao vivo, convenhamos, é um dos nossos esportes favoritos.