Estava entre um café e uma reunião aqui em Milão quando o clipe do João Lucas me travou o scroll por completo, porque ele não chegou com discurso pronto de assessoria, ele chegou com cena. Cena de infância, sala de aula, sexta-feira de brinquedo livre que na prática era sessão de revista pornográfica entre meninos, e uma menina com deficiência que era o alvo coletivo do grupo. João Lucas recusou o convite de participar, e na hora em que se recusou, virou o próximo alvo. Isso é formação de caráter narrada com precisão cirúrgica, e a plateia sentiu.
O cantor, casado com uma mulher e que fez questão de dizer isso sem defensiva, explicou que os ataques de homofobia na internet escalaram depois que o relacionamento dele ganhou visibilidade pública, e que foi justamente aí que ele decidiu estudar o tema a sério. Leu, pesquisou, fez vídeos, conectou os pontos, e voltou com argumento. A primeira turnê já era um ensaio disso tudo: metade dos shows com personagem palhaço usando maquiagem, sem fantasia, só um homem com tinta no rosto no palco.
Nos comentários do clipe, o racha foi didático. Gente emocionada com a história da menina com deficiência de um lado, e do outro exatamente os perfis que ele estava descrevendo, comprovando a tese em tempo real, sem perceber.
Eu vejo aqui um artista que entendeu que autobiografia bem contada derruba argumento ideológico sem precisar gritar. Ele não foi ao programa defender pauta, foi contar a própria vida, e a própria vida tinha todas as provas que ele precisava.
Recusar o bullying aos dez anos e virar alvo na mesma hora, isso é currículo. O resto é consequência.