Eu acompanhei esse menino desde o começo e confesso, tem virada que dá gosto de ver. João Gomes saiu do circuito de vaquejada para o topo da música nacional em um tempo que muita gente ainda leva só para entender o mercado. Aos 23 anos, já lota shows, disputa espaço de headliner em festival grande e agora atravessa o Atlântico com sanfona, voz rouca e plateia em pé.
A história da tal “voz feia” quase virou trauma. João já contou, sem pose de superado, que os ataques no começo da carreira detonaram a autoestima. Comentário cruel em rede social pesa, ainda mais para quem estava começando e lendo tudo. A mesma internet que empurrou as músicas para o país inteiro também fez ele duvidar se merecia estar ali. Em vez de bancar o debochado, João escolheu falar. Assumiu insegurança, dividiu o peso com a equipe e transformou dor em discurso público sobre vulnerabilidade masculina e saúde mental. Isso aproxima, e muito.
Enquanto a cabeça ainda carrega o sotaque do interior, os números já são de artista grande. João dominou o Prêmio Multishow 2025, levou troféus importantes e virou presença constante em grandes eventos. O projeto Dominguinho, ao lado de Jota.pê e Mestrinho, não só rendeu turnê europeia como reposicionou o piseiro em outro patamar, menos rótulo de moda e mais ideia de continuidade cultural. De repente, João passou a ser tratado como guardião de um Nordeste musical que não cabe em clichê.
A Europa entrou como prova de fogo. Não é só cantar fora do país, é testar se esse som, com sanfona e emoção crua, conversa com quem nunca pisou num forró de interior. E conversa. João deixa de ser o “menino do TikTok” para virar representante de um Brasil que mistura tradição e presente, sem pedir licença. A responsabilidade cresce junto com o público.
Nos bastidores, ele segue do mesmo jeito. Meio deslocado em camarim luxuoso, pedindo benção a veterano, segurando choro ao ouvir elogio de quem ele sempre ouviu no rádio. Em programa de TV, fala baixo, tropeça na frase, ri de si mesmo e reforça a gratidão como quem precisa lembrar todo dia de onde veio. Essa humildade também é construção de imagem, claro, mas cola porque combina com o corpo, com a fala e com a biografia.
Hoje, João vive num equilíbrio delicado. Precisa sustentar cachê alto, estádio lotado e turnê internacional sem se afastar demais do chão batido que construiu sua base. Nos palcos gigantes, tenta manter clima de show pequeno, aproxima a banda do público, abraça fã no fim e evita o personagem inalcançável. Entre vaquejada e arena, ele caminha atento.