Apresentadora, que vive um dos melhores momentos de sua carreira na internet, usa menino de 10 anos para atingir Antonia Fontenelle e transforma humor ácido em crueldade gratuita
Eu estava em Fátima, num daqueles dias em que até eu tento acreditar que a humanidade ainda tem algum conserto. Fé, amigas, conversa boa e uma taça de vinho porque santidade também precisa de hidratação. Aí abro o telefone e dou de cara com Jenny Prioli debochando de Salvatore, filho de Antonia Fontenelle.
Pronto. Acabou Fátima.

E antes que alguém venha transformar isso numa defesa de Antonia Fontenelle, economize o argumento. Antonia é adulta, fala o que quer, compra as brigas que quer e tem tamanho suficiente para receber de volta qualquer pancada que der. Quer brigar com Antonia? Entre na fila, pegue uma senha e seja feliz.
O filho dela, não.
Salvatore tem 10 anos. Nasceu em julho de 2016. É uma criança.
E foi justamente aí que Jenny perdeu completamente a medida.
No conteúdo que chegou até mim, ela chama o menino de “imbecil”, “insuportável” e “sem noção”. Depois, dirige-se diretamente a ele para dizer que sua mãe seria “flopada”. Em outro momento, transforma uma manifestação de carinho do garoto pela própria mãe em material para deboche, inventando até uma situação de fome e desemprego dentro da família.
Isso não é uma piada que saiu torta. É uma sequência.
E talvez seja exatamente por gostar de Jenny que a cena incomode tanto.
Jenny Prioli não é uma desconhecida berrando num canto esquecido da internet. Ela cresceu. Conquistou público. Virou apresentadora. Em maio deste ano, assumiu o Reage DiaTV, depois de uma trajetória curiosa dentro da própria emissora: entrou num concurso de novos talentos, foi eliminada cedo, continuou circulando pela programação e acabou conquistando seu espaço. Também construiu público com podcast, streaming, cultura pop e aquele humor venenoso que virou parte de sua identidade.
É justamente por isso que dela se espera mais.
Jenny é engraçada. Jenny é rápida. Jenny sabe fazer react. Jenny sabe encontrar a frase que vira corte. E está se tornando uma apresentadora cada vez mais conhecida. Tudo isso torna o episódio pior, não melhor.
Porque audiência não é salvo-conduto.
Há uma diferença enorme entre triturar uma celebridade adulta e colocar uma criança de 10 anos no meio da máquina para atingir a mãe dela.
Quer chamar Antonia de flopada? Chame.
Quer discutir eleição, voto, derrota, processo, carreira, comportamento ou qualquer outra coisa relacionada a Antonia? Faça.
Quer fazer duas horas de programa detonando Antonia Fontenelle? Compre um vinho, ligue a câmera e vá com Deus.
Mas deixe o menino fora disso.
O que mais me espanta é perceber uma mulher talentosa, que finalmente está ocupando um espaço maior na comunicação digital, desperdiçar parte dessa autoridade escolhendo justamente o alvo que não deveria estar na arena.
Existe uma perversidade muito contemporânea nessa história: transformar tudo em conteúdo até que ninguém mais perceba onde termina a piada e começa a humilhação.
Uma criança não precisa pagar pela personalidade da mãe. Não precisa responder pelas escolhas políticas da mãe. Não precisa carregar os desafetos da mãe. E, sobretudo, não precisa ser transformada em personagem de react de adulto.
Eu continuo achando a boba da Jenny Prioli uma das revelações mais interessantes dessa nova geração da internet. Talvez seja exatamente por isso que escrevo isto sem passar pano.
Talento não absolve ninguém de responsabilidade.
Jenny pode continuar sendo ácida, debochada, inconveniente, exagerada, feia e tudo aquilo que fez o público prestar atenção nela.
Só precisa reaprender uma coisa bastante simples:
adulto briga com adulto.
Criança a gente deixa em paz.
Agora posso voltar para Fátima. Porque, depois dessa, vinho sozinho já não estava resolvendo.