Amadas, vamos combinar uma coisa logo de cara. Se Janis Joplin estivesse viva hoje, ela estaria cancelada, exaltada, remixada no TikTok e chamada de ícone por quem jamais sobreviveria a cinco minutos da vida real dela. E talvez fosse exatamente isso que ela acharia graça.
No ano em que completaria 83 anos, a biografia Janis Joplin Sua Vida, Sua Música volta às livrarias brasileiras para lembrar que antes de virar pôster, camiseta e mito, Janis foi uma mulher atravessada por dor, rebeldia, desejo e uma urgência emocional que não cabia em rótulo nenhum.

Escrito por Holly George-Warren, o livro vai muito além da lenda da cantora bêbada, louca e autodestrutiva que o machismo adorou vender por décadas. Aqui, Janis aparece como ela era. Talentosa até assustar. Vulnerável até doer. Livre até incomodar.
A autora fez o dever de casa com obsessão. Falou com família, amigos, músicos, vasculhou cartas, diários, arquivos e entrevistas esquecidas. O resultado é um retrato íntimo de uma mulher que cantava como quem sangra e amava como quem tinha pressa. Spoiler. Tinha mesmo.

Janis não queria só sucesso. Queria amor, aceitação e um lugar no mundo que nunca foi gentil com mulheres que não pedem licença. Pagou caro por isso. Aos 27 anos, morreu de overdose acidental de heroína, deixando uma carreira curta, porém imortal, e um vazio que o rock jamais conseguiu preencher com outra mulher igual.

E vamos falar da influência, porque aqui a coisa fica séria. Sem Janis, talvez Patti Smith tivesse esperado mais. Debbie Harry tivesse sido menos ousada. Chrissie Hynde, Cindy Lauper, as irmãs Wilson e tantas outras talvez tivessem ouvido que “não era lugar de mulher”. Janis foi lá e abriu a porta no grito.
O livro lembra momentos históricos como Monterey, em 1967, quando ela subiu ao palco e fez produtores, jornalistas e músicos entenderem que algo tinha mudado para sempre. Mudou mesmo. O rock ganhou alma feminina sem pedir desculpa.

Celebrada por veículos como The New York Times e The Washington Post, a obra é direta, afetuosa e sem glamourizar a tragédia. Janis não é santificada. É humanizada. E isso incomoda muito mais.

Este livro não é só sobre música. É sobre mulheres que ousaram existir antes do mundo estar pronto para elas. Janis Joplin não morreu jovem. Ela viveu rápido demais para um sistema lento.
E ainda hoje, continua cantando melhor do que muita gente viva.