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Kátia Flávia
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Inter escala Boca Rosa para acabar com a traição bancária do brasileiro

Lançada nesta quinta (24/9), a campanha Relacionamento Financeiro coloca Bianca Andrade para seduzir o cliente de seis contas abertas, num banco com 45,3 milhões de clientes e só 26,4 milhões usando a conta de verdade.

Kátia Flávia

24/09/2026 18h00

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Bianca Andrade, também conhecida como Boca Rosa, é a protagonista da nova campanha do Inter. (Foto: Divulgação)

Eu estava na fila do cartório no Centro, senha 147 na mão, esperando para reconhecer firma, quando uma amiga que trabalha com mídia na Faria Lima me ligou. Deixei a caneta cair no chão. O Inter lançou hoje a campanha “Relacionamento Financeiro”, com Boca Rosa de protagonista e o recado “Inteligente é ter um relacionamento sério com as suas finanças”. Tradução para quem tem conta em todo canto: o banco laranja cansou de ser contatinho e quer casar.

O nome técnico dessa novela é principalidade. Banco principal é aquele onde o salário cai, o boleto sai e o cartão passa. Quem ocupa esse posto enxerga o fluxo de dinheiro do cliente, empresta com menos risco e vende cartão, investimento e seguro sem precisar implorar. O problema está num estudo da idwall usado pelo próprio Inter: o brasileiro tem, em média, seis contas bancárias abertas. Cada banco leva um pedacinho e nenhum leva o casamento.

E o Inter levou a metáfora ao pé da letra. No filme principal, o dispositivo de pagamento por aproximação da marca, o Inter Ring, vai no dedo feito anel. A aliança vem com os pontos Loop, que cada compra gera e que viram cashback, dólar ou investimento, além de cartão de crédito, Conta Global e Inter Shop. Quanto mais serviço o cliente usa dentro do mesmo app, mais ponto acumula. Fidelidade com programa de recompensa, coisa que casamento nenhum ofereceu até hoje.

Bianca Andrade, a Noiva do Super App, entra com credencial de empresária: fundou a Boca Rosa Company e usa a própria virada financeira como vitrine. Na fala dela, faz sentido concentrar tudo num lugar só quando o parceiro acompanha as fases da vida. A diretora de branding do banco, Andrea Nocciolini, a Cupido do Ecossistema, resumiu o jogo com sinceridade rara: quanto mais o cliente usa o app, mais ele ganha. O balanço completa a frase, o banco ganha junto. A criação é da Talent e a operação com criadores de conteúdo ficou com a BR Media. Detalhe que eu amei na ficha técnica: treze pessoas do Inter assinam a aprovação da campanha. Tem casamento na Candelária com menos padrinho.

O timing tem história. No primeiro trimestre de 2026 a ação do Inter afundou depois que o banco não cumpriu o plano 60/30/30, que prometia 60 milhões de clientes, ROE de 30% e índice de eficiência de 30%. A meta virou a tal Regra dos 50, que soma crescimento de receita e retorno. No segundo trimestre o lucro subiu 34%, para R$ 421 milhões, com ROE de 16,3%. A base chegou a 45,3 milhões de clientes, mas os ativos são 26,4 milhões. Fazendo a conta, quase 19 milhões de pessoas deram match com o Inter e nunca mais responderam.

E é aí que entra o crédito. O motor do lucro do Inter é a receita de juros, e o crédito por cliente ativo cresceu 11% no trimestre. Cliente que concentra a vida no app vira cliente que o banco conhece por dentro e para quem empresta mais.

Para o seu bolso, a conta tem dois lados. Concentrar compras rende mais pontos e tende a melhorar a oferta de crédito, porque o banco passa a enxergar sua renda. Só que crédito mais fácil também vira tentação de parcelar a vida inteira. E quem tem dinheiro guardado precisa lembrar que o FGC cobre até R$ 250 mil por CPF em cada instituição: juntar investimento acima disso num banco só deixa o excedente sem rede de proteção. Relacionamento sério, sim, mas com pacto antenupcial.

Inter escolheu bem a noiva e a metáfora para um problema que pesa no balanço dele. O brasileiro de seis contas sabe muito bem o que faz: pesquisa tarifa, caça cashback e fica onde o mimo é maior. Exclusividade, nesse mercado, se conquista pagando o jantar todo dia.

Dados de mercado conferidos, fora do texto: no primeiro trimestre a ação afundou após números considerados fracos, quando o banco não cumpriu o plano 60-30-30; o lucro líquido recorrente do 2T26 foi de R$ 421 milhões, alta de 34% sobre o mesmo período de 2025, com ROE de 16,3% e crédito por cliente ativo crescendo 11%; o total de clientes chegou a 45,3 milhões e os ativos a 26,4 milhões, com taxa de ativação de 58,3%.

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