O céu do Cosme Velho amanheceu daquele cinza que dá vontade de fingir que a semana não começou, e Kátia estava ali, enrolada, tentando descolar o corpo do colchão depois de perder a hora feio. A academia do Leblon que esperasse sentada. Porque antes do café ficar pronto o telefone já estava tocando, e do outro lado da linha uma alma caridosa da Globo avisou que o rumo de Quem Ama Cuida tinha sido confirmado internamente. Kátia sentou na cama. Kátia acendeu a televisão. Kátia esqueceu completamente que existia esteira no mundo.
O que vem por aí é o seguinte. Ingrid vai assumir a presidência da Brandão Joias e derrubar Tiago do cargo, mesmo reconhecendo, com todas as letras, que o rapaz entende infinitamente mais do negócio do que ela. A eleição será decidida no voto de minerva de Ulisses, que cede à pressão da vilã e fica do lado da sobrinha. Tiago, humilhado, se recusa a ajudar na transição e sai batendo a porta. Ademir se oferece para administrar a empresa ao lado de Ingrid e logo se vê afundado num escândalo com uma série de denúncias de assédio sexual. Resultado: sem experiência, sem Tiago, cercada por disputa de família e com o braço direito em chamas, Ingrid empurra a joalheria para uma crise financeira que obriga a companhia a sair mendigando investidor.

E é exatamente nesse buraco que a história dá a maior reviravolta do ano. Adriana vai descobrir que Arthur Brandão deixou uma fortuna escondida na Suíça, e a pista estará no anel de casamento que o empresário deu a ela. Ao analisar a joia, ela encontra um código que leva a uma conta bancária secreta aberta pelo milionário antes de morrer. Da noite para o dia, a fisioterapeuta passa a administrar uma fortuna. Quando a joalheria precisar de capital, ela injeta o dinheiro e se torna sócia da companhia sem que Ulisses, Pilar e Tiago façam a menor ideia de quem está por trás do investimento.
O bastidor aqui é o que dá tempero à coisa toda. Essa virada estava na sinopse original de Walcyr Carrasco, escrita antes de Claudia Souto entrar na coautoria, e muita tramazinha foi mexida de lá para cá, mas a chegada de Ingrid ao comando está indo ao ar exatamente como estava previsto no projeto inicial. Ou seja: o pessoal da Globo aposta que o desdobramento seguinte também se mantém, só que bem mais adiante, depois do capítulo 100. Traduzindo do dialeto de emissora para o português do portão: a vingança está engatilhada, só está esperando o calendário.
Agora vamos falar sério. Ingrid pegando a cadeira da presidência é a definição de gente que confunde herança com competência. Ela sabe que Tiago é melhor gestor, ouve isso na cara dura e assume assim mesmo, porque na cabeça dela mandar é sobrenome. Ulisses, esse então, precisa ser processado por covardia moral, entregou o voto decisivo à primeira pressãozinha da vilã e vai passar o resto da novela olhando para o teto se perguntando o que foi que ele fez. E Adriana, que apanhou dessa família em todos os capítulos, vai comprar o pedaço da empresa que a destruiu usando o dinheiro do próprio Brandão. Isso é justiça poética de um nível que a gente não via desde a Maria do Carmo comprando o passado de volta em Senhora do Destino.

O veredito de quem já assistiu novela demais: a Brandão Joias vai desabar por dentro, e quando Ingrid finalmente descobrir que a sócia oculta é justamente a mulher que ela passou meses tentando enterrar, o barraco vai ter que ser transmitido em rede nacional com replay. Kátia torce por Adriana com o coração inteiro e o café esfriando na mão. Que Ingrid caia do cavalo, que Ulisses engula cada voto, que Pilar perca o chão e que Tiago volte pela porta da frente ao lado de quem sempre esteve certa. E que ninguém desligue a televisão perto do capítulo 100, porque o dia em que essa bomba estourar não vai ter academia, não vai ter chuva e não vai ter compromisso que segure ninguém.